VIII ASSEMBLEIA GERAL DA HUTURARA 2016

Democracia xamânica

Democracia xamânica


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disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/833416-democracia-xamanica-a-algaravia-da-politica-ianomami.shtml

Em cinco línguas, a algaravia da política ianomâmi

RESUMO
Em sete dias de assembleia e eleições na comunidade de Toototobi, no Estado do Amazonas, Davi Kopenawa foi reeleito líder da associação Hutukara, que representa os interesses dos índios ianomâmis. Debates entre líderes e eleitores e negociações com o Estado brasileiro apontam o domínio dos ianomâmis sobre as artes da costura política.

MARCELO LEITE

Após sete dias de debates e discursos, com tradução nada simultânea
nas quatro línguas ianomâmis e em português, aproxima-se o ponto alto da
quarta assembleia da associação Hutukara: eleição da nova diretoria.

Liderada por Davi Kopenawa Yanomami, 54, e seu filho Dário, 28, a composição atual se candidata à reeleição depois de dois anos de mandato.
No centro da maloca, construída para a reunião de várias aldeias na antiga comunidade de Toototobi (no AM, perto da divisa com RR), organiza-se uma fileira de candidatos de oposição para cada posto, cara a cara com os adversários.


São 15h40 de domingo, 7 de novembro, sétimo e último dia da
assembleia. Pergunto a Marcos Wesley de Oliveira, do Instituto Socioambiental, há 13 anos educador entre os ianomâmis e meu guia etnológico em Toototobi, se alguém se apresentará para concorrer com Kopenawa. O líder fundou a associação formada só por indígenas em 2004, no vácuo deixado pela extinção do convênio que o Ministério da Saúde mantinha com a organização Urihi, encarregada da assistência médica aos ianomâmis, por sua vez derivada de outra ONG de brancos, a CCPY (Comissão pela Criação do Parque Yanomami, depois Comissão Pró-Yanomami). [Leia mais em
folha.com/ilustrissima]
O CARA Kopenawa preside a Hutukara desde sua criação e é obviamente "o cara" em Toototobi, como diriam Lula e Obama. Por isso, o guia Oliveira diz achar que ninguém se arriscaria a enfrentá-lo, mas os ianomâmis o surpreendem mais uma vez.  Gilberto, um desconhecido três décadas mais moço, perfila-se diante do líder que já ganhou o Prêmio Global 500 da ONU e correu mundo em defesa de seu povo. O jovem transpira irreverência e ambição. Seu oponente parece aferroá-lo com os olhos, fazendo justiça ao nome do meio, Kopenawa, que significa "marimbondo". Mas parece mais forte a atração exercida sobre Gilberto pela vida glamourosa de Dário e os outros jovens diretores da
associação, que vivem em Boa Vista (RR), sede da Hutukara, e compõem a elite de professores de educação em língua indígena cultivada por Kopenawa para receber o bastão e assumir a defesa dos interesses de seu povo diante do Estado.
Democracia é uma arte dos brancos, e Kopenawa aprendeu algumas coisas com eles, "napë pë" (coletivo de "napë", ou não ianomâmi). Não adianta brigar com "napë", ensina. Se brigar, não consegue nada. Em lugar de flechas e bordunas, palavras.
"O presidente [da associação Hutukara] tem de falar forte com os políticos. Vocês não têm medo?" -vocifera Kopenawa. Não é coisa para crianças, explica, mas para "pata", os mais velhos e sábios. Tem de andar pelo Brasil, pela Europa, falar com "napë" como representante do povo ianomâmi. Tem que ser valente, guerreiro.  FASCÍNIO O correligionário Alfredo cobre outros flancos: "Vocês vão ter de ficar longe de suas mulheres. Mexer em computador. Seus velhos vão ficar com muita saudade". Micros, assim como filmadoras e máquinas fotográficas, exercem evidente fascínio sobre os índios, mas são poucos e jovens os que têm acesso a eles, como os dirigentes da associação. São deles também as bermudas mais vistosas (eles recebem uma ajuda de custo de R$ 150 mensais para se manterem na cidade).
Os adversários se encolhem, mas não recuam. Começa a votação, cargo por cargo. A ideia de usar cédulas de papel é abandonada, porque muitos não sabem ler nem escrever.
Opta-se pela formação de filas distintas para os eleitores de cada candidato à vaga de presidente, e assim por diante. Duas, três, quantas filas forem necessárias, saindo da maloca pelo terreiro, mato adentro, homens e mulheres não muito misturados. Pelo estatuto da Hutukara, todo ianomâmi com mais de 18 anos pode votar.
As filas se formam com rapidez. Consomem menos tempo para se materializar que a contagem de cada uma por dois "napë". Os índios aguardam a apuração de cada fila, até que se desfaça, com a mesma paciência com que acompanharam os debates por até 12 horas, a cada dia. Mesmo candidatos a presidente se encaminham disciplinados para as fileiras.
É a festa da democracia, estilo ianomâmi. Com a participação dedicada de cerca de 600 índios (as cozinheiras falam em mais de mil, com a responsabilidade de preparar 110 kg de arroz e 20 kg de feijão por dia).
Muitos vieram de perto, a algumas horas ou dias de caminhada, mas convidados de aldeias a centenas de quilômetros, inclusive da Venezuela, chegaram de avião na pista de grama vizinha, a R$ 1.100 a hora de voo. Uma festa de R$ 232 mil, bancados pela Hutukara com doações de financiadores. O principal é a Regnskogfondet (Fundação Floresta Pluvial), da Noruega, que comparece com R$ 287 mil anuais. Mas o encontro teve apoio extra de sete entidades, entre elas a Fundação Nacional do Índio (Funai), que pagou 50 horas de voo.
EDUCAÇÃO Na pauta da Quarta Assembleia da Hutukara Associação Yanomami, o dia 3 de novembro, uma quarta-feira, está reservado para o tema educação. Na berlinda se acha Alda Regina Amorim Franco, secretária-adjunta de Educação do governo de Roraima, um Estado pouco dado a políticas em favor dos índios (a praça central da capital, Boa Vista, conhecida como "Bola", ostenta a gigantesca estátua de um garimpeiro).
Dário, filho de Kopenawa, ouve as explicações burocráticas da secretária-adjunta sobre as deficientes escolas nas aldeias. Toma então a palavra e, sem que ninguém entenda de imediato, começa a chamar para o centro da maloca representantes das 53 comunidades presentes. Pede que se organizem em duas filas, uma dos que têm escola na aldeia (35 se movem para ela) e outra dos que não têm (18). Por fim, dirige-se só aos 35 privilegiados e pergunta: Chegou material escolar? Merenda? Carteiras, lousas, armários?
Todas as perguntas recebem um "não" uníssono como resposta. O desconforto das autoridades é visível. Os índios querem respostas, compromissos, prazos, explicações. Em meio aos discursos em línguas ianomâmis, pipocam vocábulos em português: "corrupção", "manipulação". As representantes da secretaria enrolam justificativas, como período eleitoral, ou dificuldade de levar cargas pesadas de móveis e livros, em avião, até as aldeias.
Aproxima-se a hora limite, 16h30, para a decolagem do avião que levaria as autoridades estaduais de volta a Boa Vista. A subsecretária parece aliviada com a partida iminente. Os ianomâmis recebem então a contribuição inesperada do piloto da empresa de táxi aéreo.
A notícia chega primeiro para Davi Kopenawa, que pede o microfone a Dário e anuncia: o piloto sumiu. Ou melhor, decolou. Diz, com ar divertido e sob risadas dos liderados, que vai providenciar uma rede e uma camiseta da Hutukara para cada uma das funcionárias da Secretaria de Educação: "Vocês estão na sua casa. Avião foi embora. Não estou brincando, não".
A sessão de reclamações e queixas prossegue até 17h40, para ser retomada na manhã seguinte. O calor é infernal. Quem não tem o privilégio, como a secretária-adjunta retida, de tomar banho e usar os vasos sanitários do posto de saúde, única construção de alvenaria em Toototobi, se vale do rio, onde também se lavam louças e peixes, e das muitas trilhas ao redor da maloca.
ELOQUÊNCIA Dormir na companhia de 600 ianomâmis pode ser revelador. Em quase todas as noites, o visitante será despertado, por volta das 4h30, por discursos numa das quatro línguas ianomâmi (yanomae, yanomamö, ninam e sanumá). Até palmas se fazem ouvir, das redes armadas sob a maloca onde acontecem as discussões. Marcos de Oliveira explica que são falas de líderes reconhecidos mais pela eloquência do que pelo mando, homens mais velhos que discorrem sobre o momento vivido pela comunidade e serviços que precisam ser realizados.
Toototobi, no entanto, é uma aldeia antiga. Quase ninguém mora ali -a casa coletiva ("xapono") mais próxima, Lasasi, no tradicional formato de anel, fica a uma hora e meia de caminhada. Aos poucos, o "napë" se dá conta de que os improvisos da madrugada tratam da própria assembleia. Não são discursos para parentes e membros da aldeia de origem, mas para o coletivo ianomâmi. Os índios fazem política dia e noite, sem descanso.
Isso fica mais claro na madrugada de sexta-feira. Ainda na quinta, depois do jantar, xamãs de algumas comunidades apresentam danças em que recebem os "xapiri", espíritos com que só eles se comunicam. No transe induzido por "yekuana" (pó de casca da árvore virola e outros ingredientes) soprado em suas narinas, negociam reforços de outras camadas do mundo para enfrentar os males que afligem os ianomâmis nesta terra ("hutukara"), surgida com a primeira queda do céu.
A duração da dança de cada xamã, porém, foi limitada a 15 minutos e cronometrada pelos jovens diretores da associação Hutukara. Pajés célebres, como Levi, da região de Demini, se recusam a seguir a regra e deixam de se apresentar. Na madrugada, ouve-se a voz forte de Levi, em discurso de protesto. Líderes de outras comunidades veiculam boatos sobre Davi Kopenawa, que dorme longe da grande maloca, e as supostas vantagens - dinheiro, viagens, computadores - que reserva para seu grupo, entre eles o
filho Dário.
FOFOCAS O falatório noturno chega ao conhecimento de Kopenawa antes que os "napë" encontrem alguém para traduzir seu conteúdo. Às 8h30 de sexta, o presidente da Hutukara suspende a pauta prevista -prestação de contas pelos diretores Dário, Mozarildo, Alfredo, Marinaldo e Rogel- e convoca uma extraordinária "pata thë ã", conversa de velho, ou conversa de homem. Chama pelo nome representantes de comunidades Ajuricaba e Aracá para que venham à maloca repetir as "fofocas".
Antes de passar a palavra, contudo, Kopenawa critica os jovens da Hutukara por enquadrar a apresentação dos xamãs, homens habilitados a transitar entre as camadas do mundo que a tradição tupi consagrou com a denominação de "pajés". Kopenawa controla de perto setores nevrálgicos, como a distribuição de comida, mas deixa a burocracia da pauta em plenário a cargo de seus seguidores mais jovens, intervindo só quando o caldo
político ameaça entornar. Ele próprio um xamã, explica que carrega Levi em suas viagens porque se sente mais forte na sua companhia. Nega que esteja explorando o colega e que tenha recebido dinheiro em viagens que fizeram para auxiliar na montagem de uma ópera sobre a Amazônia na Alemanha.
Antônio, de Ajuricaba, fala então de computadores que só vão para algumas aldeias, não a sua. Mas se declara feliz, "na frente de todos os napë", pela assembleia da Hutukara, que acompanha pela primeira vez. Morais, de Aracá, desconversa: afirma que nunca fez fofocas sobre xamãs. Ninguém pede desculpas, só "explicações".
Diretores da Hutukara explicitam os critérios para escolher as comunidades que receberão equipamentos multimídia do Ministério da Cultura, parte do projeto Pontos de Cultura, para registro de rituais e produção de novos conteúdos. Um cunhado de Kopenawa diz que é tudo culpa de um missionário, que anda falando mal dele. O próprio Levi se queixa só do tratamento dado aos xamãs, não tendo dúvidas sobre o caráter de Kopenawa. Às 10h, toda a roupa suja está lavada.
Seguem-se cinco apresentações xamânicas, desta vez com tempo livre. Duram até depois do meio-dia, uma média de 25 minutos por performance. A última, a cargo do concorrido Levi, se dedica a tratar as pernas da fotógrafa Claudia Andujar, 79, que sofreram quatro cirurgias desde sua última visita aos amigos ianomâmis, 11 anos atrás.
CASAMENTO Sábado, em Toototobi, o dia foi dedicado à saúde, segundo ponto de atritos constantes entre indígenas e o Estado dos brancos (o terceiro é a proteção da terra indígena). O cirurgião Antônio Alves, titular da recém-criada Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) na cúpula do Ministério da Saúde, é recebido com pompa. Índias o cercam, pintam seu rosto, tiram a camisa, colocam-lhe nos braços adereços com longas penas vermelhas de arara, usados pelos xamãs e líderes. Davi Kopenawa diz que a nova aliança constitui "um casamento".
O tratamento cerimonioso contrasta com o que havia sido reservado a Gonçalo Teixeira dos Santos, administrador da Funai em Roraima. Sintonizado com políticos de peso no Estado, como o senador Romero Jucá (PMDB), Santos passou pela assembleia, mas deixou Toototobi antes da quinta-feira, para quando a pauta previa debates sobre proteção contra invasores (garimpeiros, fazendeiros e pescadores). Vale dizer, cobranças ácidas sobre a inoperância da Funai no Estado. Foi, por isso, qualificado de covarde: "A Funai é como um pai que não defende o filho da onça", disparou Dário.
Fora a administração em Roraima, a Funai é bem-vista. Acaba de criar uma frente de proteção ambiental específica para ianomâmis e índios isolados da região. Comandado direto de Brasília, o grupo interventor foi entregue a José Carlos Meirelles, sertanista de reputação construída em 35 anos de dedicação para manter isolados os índios isolados do Acre.
Tática similar, mas de maior alcance, foi adotada pelo governo federal no terreno da saúde. Incapaz de fazer funcionar bem o atendimento a indígenas pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), criou a Sesai e a subordinou diretamente ao ministro da Saúde. Segundo Kopenawa, a seu pedido.
Alves entra com gosto no casamento ianomâmi. Veste de volta a própria camisa, mas não tira os adereços do braço. Ouve Kopenawa falar das "cagadas" da Funasa, cujos quadros a Sesai herdou, e pedir a exoneração do responsável pela saúde indígena em Roraima, Marcelo Lopes. Retribui dizendo, no discurso de despedida, que agora fala sério, na condição de homem casado, e ouve risadas. Mas Alves não se compromete com nada, no discurso final. E sofre novo assédio no caminho para a pista de pouso: não adianta brigar com "napë", mas, no manual da política ianomâmi, insistir e persistir são armas lícitas.
NOITE DE FESTA Dário ainda tem algo a aprender com o pai e com o que este assimilou dos "napë". O rapaz parece um dos mais nervosos com os questionamentos e a concorrência política. Seu estilo de intimidação dos adversários soa direto demais, sem a verve criativa que demonstrara quatro dias antes, ao separar representantes de aldeias com e sem escola para constranger a secretária-adjunta de Educação de Roraima. Referindo-se à incompetência da Funai para barrar os garimpeiros e fazendeiros, que, na
sua visão, os adversários eleitorais não terão coragem de enfrentar, ele dispara: "Sem a Hutukara, vocês vão morrer. Vão morrer mesmo".
Ao pé da letra, ele provavelmente está certo: sem organização própria, os ianomâmis permanecerão mudos diante do Estado brasileiro, incapazes de apresentar suas demandas básicas: educação, saúde e segurança fundiária. O erro juvenil de Dário é acreditar que a associação desaparecerá sem a liderança atual.
Seu pai seguramente já se deu conta de que o surgimento de candidaturas avulsas sugere que o controle da democracia ianomâmi não é privilégio do grupo que a pôs em marcha como alternativa ao confronto que acaba em extermínio. Hoje, para os ianomâmis, política é a continuação da guerra por outros meios, entre aldeias ou perante os "napë".
Ao final da contagem das filas, Kopenawa derrota Gilberto por 210 votos a 114. Ele ainda é o cara, o "pata". Com escores mais apertados, Dário e os outros rapazes vão se reelegendo. A votação se encerra às 17h55, mas a fila para assinar o livro prossegue até depois das 21h. Kopenawa discursa em yanomae, sua língua, e ninguém providencia tradução para os "napë".
Começam os cantos e danças que atravessarão a noite. A ágora ianomâmi só se esvazia e retorna ao silêncio após as 4h30, já na madrugada de 8 de novembro. A meia dúzia de lâmpadas fluorescentes da maloca se apaga assim que o gerador é desligado. A mando de David Kopenawa, decerto. Segunda-feira é dia de branco.

Nota
O repórter especial Marcelo Leite viajou de Boa Vista (RR) a
Toototobi (AM) a convite da Hutukara Associação Yanomami.

A festa da democracia, estilo ianomâmi, mobiliza cerca de 600 índios
vindos a pé ou de avião, ao custo de R$ 232 mil pagos por financiadores
como a Fundação Floresta Pluvial, da Noruega

Davi Kopenawa controla de perto setores nevrálgicos da assembleia,
como a distribuição de comida, mas deixa o plenário a cargo dos mais
jovens, intervindo só quando o caldo ameaça entornar


PAJÉS YANOMAMI-Índios fazem rituais para salvar a Terra

Por   Neuraci Soares, Jornal Folha de Boa Vista. 

  Com rituais religiosos, os índios Yanomami acreditam que podem contribuir para reverter os problemas climáticos que o planeta Terra tem apresentado nos últimos anos. O assunto foi debatido com ênfase na IV Assembleia Geral da Hutukara Associação Yanomami, realizada de 1º ao dia 7, na comunidade Toototobi, onde estiveram reunidos 600 indígenas, entre eles, 200 pajés (xapiripë). Para o líder dos Yanomami e presidente da Associação Hutukara, Davi Kopenawa, sem a ajuda dos pajés os brancos não conseguirão controlar as mudanças climáticas. Além de explicarem sobre as causas, consequências e modos de controle das mudanças climáticas, eles realizaram sessões de pajelança demonstrando o esforço contínuo e necessário para manter a perenidade da Urihi a (a Terra) e evitar a “queda do céu”. O tema Mudanças Climáticas foi abordado pela primeira vez num curso de formação de professores Yanomami, em maio do ano passado. Promovido pelo Projeto de Educação Yanomami do Instituto Sócio Ambiental (ISA), o curso contou com a participação de Márcio Santilli, coordenador do Programa de Política e Direito Socioambiental (PPDS) do ISA. Ele explicou como as mudanças climáticas estão relacionadas ao aumento do efeito estufa e este, por sua vez, ao aumento da emissão de gases na atmosfera nas últimas décadas, especialmente do carbono que é lançado pela queima das florestas tropicais e de combustíveis fósseis. Depois do curso, os professores Yanomami passaram a desenvolver pesquisas em suas comunidades indagando sobre a percepção dos índios sobre as mudanças climáticas e constataram o que posteriormente foi exposto pelos líderes espirituais durante a assembleia. “A Terra está esquentando e eventos como furacões estão mais frequentes porque os napë pë [brancos] estão mexendo com seres perigosos, como aqueles que vivem debaixo da terra, quando são extraídos minérios e petróleo. E perigosa também é a poluição do céu, que é frágil e passível de desabar sobre nossas cabeças”, afirmou Luixi Yanomami, xapôri da aldeia Piaú. Segundo Dário Kopenawa, da diretoria da Hutukara e filho de Davi, os xapiri Yanomami foram enfáticos em afirmar que os napë pë (brancos) devem parar de derrubar as florestas e de buscar minérios no subsolo. “Com essas medidas e o apoio dos pajés que sustentam o céu, a Terra continuará sendo um lugar possível de se viver. Sem os pajés Yanomami a Terra esquentará e o céu cairá, pois”, afirma. PAJELANÇA – Questionado sobre detalhes dos rituais de pajelança que estão sendo realizados para evitar os problemas climáticos, Dário disse que os índios não são autorizados a falar ou publicar nada sobre o assunto, pois Omama, o Deus dos Yanomami, não permite. “Como vocês brancos têm normas e regras, nós também temos, e a não divulgação dos rituais é uma dessas regras”, acrescentou.  

Liderança Yanomami denuncia possível desvio de recursos na educação

18/11/2010 08h58

Por   Neuraci Soares, Jornal Folha de Boa Vista.

Os índios Yanomami aproveitaram a presença da secretária adjunta estadual de Educação, Alda Regina, na IV Assembleia Geral da Hutukara Associação Yanomami, para reivindicar mais uma vez ações na área de educação e denunciar a não aplicação de recursos do Plano de Ações Articuladas para a Educação Indígena (PAR), que faz parte do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) do MEC, da ordem de R$ 619 mil.

Segundo o tesoureiro da Hutukara, Dário Kopenawa, os recursos do PAR Indígena deveriam se aplicados em dois cursos de formação e acompanhamento pedagógico às escolas no ano de 2010, mas até o momento nada foi realizado neste sentido.

Eles reivindicaram também a certificação dos professores formados no ensino médio pelo projeto Yarapiari promovido pelo ISA e o apoio as 35 escolas Yanomami criadas pela SECD/RR, mas, segundo eles, abandonadas durante todo o ano de 2010.

Representantes de várias comunidades onde não há escola também manifestaram à secretária adjunta o desejo de que sejam implantadas em suas aldeias e de que pessoas da comunidade sejam formadas como professores.

Dário disse que das 35 escolas localizadas na terra Yanomami, apenas 23 são reconhecidas e todas se encontram em estado precário. Para ele, devido ao grande número de índios, pouco mais de 19 mil, distribuídos em 120 comunidades, seriam necessárias pelo menos 200 escolas para atender a demanda do seu povo.

A coordenadora do Projeto de Educação Yanomami do ISA, Lídia Montanha, lamentou que, em 11 anos do Projeto Yarapiari, este seja o primeiro ano em que não houve curso de formação de professores Yanomami. Isso se deu porque até o momento não foram aplicados os recursos garantidos pelo PAR Indígena.

Diante das muitas reivindicações e manifestações de descontentamento, Dário disse que a secretaria pretende ao menos regularizar o atendimento as 35 escolas criadas antes de criar novas. E sobre os recursos do PAR Indígena, ela não soube dizer se o dinheiro chegou ou não à sua pasta.

EDUCAÇÃO – A Folha tentou contanto com a secretária adjunta da Educação, Alda Regina, para falar sobre as reivindicações e denúncias dos Yanomami, mas não teve nenhum retorno até o fechamento desta edição.

Mudança Climática é tema da IV Assembleia Geral da Hutukara Associação Yanomami

Fonte: ISA Instituto Sócio Ambiental-16/11/2010

Diponível em: http://www.socioambiental.org/noticias/nsa/detalhe?id=3211

Preocupação com as mudanças climáticas e presença do secretário da recém- criada Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), Antonio Alves, foram destaques na assembleia que reuniu mais de 600 pessoas de 72 comunidades entre 1º e 7 de novembro no Toototobi, Terra Indígena Yanomami.

"Sem a ajuda dos pajés yanomami os brancos não conseguirão controlar as mudanças climáticas". A afirmação do líder Davi Kopenawa Yanomami, reeleito presidente da Hutukara, no Toototobi, reflete o protagonismo dos pajés yanomami na abordagem do tema durante a assembleia. Além de explicarem sobre as causas, conseqüências e modos de controle das mudanças climáticas, eles realizaram sessões de pajelança demonstrando o esforço contínuo e necessário para manter a perenidade da Urihi a (a Terra) e evitar a queda do céu.

O tema Mudanças Climáticas foi abordado pela primeira vez num curso de formação de professores yanomami em maio do ano passado. Promovido pelo Projeto de Educação Yanomami do ISA, o curso contou com a participação de Márcio Santilli, coordenador do Programa de Política e Direito Socioambiental (PPDS) do ISA, que explicou como as mudanças climáticas estão relacionadas ao aumento do efeito estufa e este, por sua vez, ao aumento da emissão de gases na atmosfera nas últimas décadas, especialmente do carbono que é lançado pela queima das florestas tropicais e de combustíveis fósseis.

Depois do curso os professores yanomami passaram a desenvolver pesquisas em suas comunidades indagando sobre a percepção dos yanomami sobre as mudanças climáticas e constataram o que posteriormente foi exposto pelos pajés durante a assembleia: "a Terra está esquentando e eventos como furacões estão mais frequentes porque os napë pë (brancos) estão mexendo com seres perigosos, como aqueles que vivem debaixo da terra, quando são extraídos minérios e petróleo. E perigosa também é a poluição do céu, que é frágil e passível de desabar sobre nossas cabeças", afirmou Luixi Yanomami, pajé da aldeia Piaú.

Os pajés yanomami foram enfáticos em afirmar que os napë pë devem parar de derrubar as florestas e de buscar minérios no subsolo. Com essas medidas e o apoio dos pajés que sustentam o céu, a Terra continuará sendo um lugar possível de se viver. Sem os pajés yanomami a Terra esquentará e o céu cairá, pois, como disse Davi (Kopenawa), os pajés constituem a "controladoria da Terra".

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À esquerda, o Pajé Luixi Yanomami e... ... à direita, o Pajé Levi Yanomami

Secretário de Saúde Indígena vai à assembleia

A chegada de Antonio Alves, o secretário da recém-criada Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), em 6 de novembro, foi motivo de comemoração entre os Yanomami. O decreto de criação da Sesai foi assinado pelo Presidente Lula e veio atender a uma reivindicação antiga das lideranças indígenas, que estavam insatisfeitas com a péssima qualidade dos serviços prestados pela Funasa e com os muitos escândalos de corrupção e má gestão dos recursos públicos que envolveram o órgão.

No Toototobi, Alves recebeu as boas-vindas de Davi Kopenawa e foi presenteado com um bracelete de miçangas e um adorno com penas de arara característico dos Yanomami. Conforme ia vestindo o secretário com os adornos, Davi, que usada adornos iguais, disse que aquele presente simbolizava uma aliança entre os Yanomami e o novo secretário e que a partir daquele momento existia um compromisso de lealdade entre ambos. Esse "casamento", como disse Davi e reafirmou o secretário em fala posterior, "é para que o senhor trabalhe junto com os Yanomami, respeitando a nossa cultura e garantindo uma saúde de qualidade para o meu povo". Davi também enfatizou que na nova secretaria não deve haver desvio do dinheiro destinado à saúde dos Yanomami e exigiu do novo secretário o compromisso de não levar para a Sesai os funcionários de Roraima publicamente envolvidos em corrupção.

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Pintado de urucum, Alves, ladeado por Armindo Goes, presidente da Ayrca, e de frente para Davi Yanomami, presidente da HAY, recebe adornos.

Pintado de urucum e usando os adornos presenteados, Antônio Alves disse que esta era a sua primeira visita a uma Terra Indígena como secretário e que isso para ele era uma honra porque o Distrito Sanitário Yanomami (DSY) foi o primeiro distrito de saúde indígena a ser criado no Brasil, em 1992, e tem papel de destaque no processo de consolidação do subsistema de saúde indígena.

Antônio Alves disse que o processo de transição da Funasa para a Sesai deve durar até no máximo o dia 30 de abril de 2011 e que, "na condição de casado" seu compromisso era o de trabalhar em conjunto com os Yanomami, retomando a formação dos agentes de saúde, equipando os postos de saúde dentro das Terras Indígenas e realizando a contratação de profissionais de saúde através de concurso público, compromissos estes também declarados pelo secretário em entrevista concedida ao ISA em 26 de outubro.

Mortes de Yanomami na Venezuela

Durante a assembleia circularam denúncias de que 54 Yanomami teriam morrido na Venezuela nos últimos três meses devido a epidemias de malária. Foi grande a indignação de todos com essas notícias. De acordo com relatos dos Yanomami da Venezuela, presentes à assembleia, as mortes ocorreram nas comunidades de Maiyo, Awakau e Pooshi, localizadas em uma região montanhosa de difícil acesso e que não recebe qualquer tipo de assistência. Fontes do governo venezuelano reconhecem 17 mortes. Qualquer que seja o número exato, representam de 10% a 25% da população local.

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As autoridades venezuelanas têm conhecimento da epidemia na região desde 31 julho, mas só em 13 outubro a primeira equipe de saúde chegou ao local. Nessa ocasião, exames revelaram 85% de casos positivos de malária, sendo metade deles do tipo falsiparum que é a forma mais grave e pode levar à morte. A falta de assistência à saúde dos Yanomami da Venezuela é bem conhecida dos Yanomami que vivem no Brasil. Não são raras as vezes que grupos de Yanomami atravessam a fronteira em busca de atendimento médico. Muitas das vezes são comunidades inteiras que trazem consigo relatos de doenças e mortes.

Educação diferenciada

A educação, tema de grande interesse dos Yanomami, também foi tema da assembléia. Na presença da secretária adjunta da Secretaria de Educação do Estado de Roraima (SECD/RR), sra. Alda Regina, os Yanomami reivindicaram a certificação dos professores formados no ensino médio pelo Projeto Yarapiari promovido pelo ISA e o apoio às 35 escolas yanomami criadas pela SECD/RR, mas abandonadas durante todo o ano de 2010. Representantes de várias comunidades yanomami onde não há escola também manifestaram à secretária adjunta o desejo de que estas sejam implantadas em suas aldeias e de que pessoas da comunidade sejam formadas como professores.

Diante das muitas reivindicações e manifestações de descontentamento, a secretária disse que a SECD/RR pretende ao menos regularizar o atendimento às 35 escolas criadas antes de criar novas. Com relação ao Projeto Yarapiari, ela disse que a dificuldade para a sua aprovação está na resistência de alguns poucos membros do Conselho Estadual de Educação (CEE) que devem ser esclarecidos sobre a boa qualidade técnica do projeto e que ela mesma se empenhará em oferecer esses esclarecimentos.

A coordenadora do Projeto de Educação Yanomami do ISA, Lidia Montanha, lamentou que, em 11 anos do Projeto Yarapiari, este seja o primeiro ano em que não houve curso de formação de professores yanomami. Isso se deu porque até o momento não foram aplicados os recursos garantidos pelo PAR (Plano de Ações Articuladas para a Educação) Indígena, que faz parte do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) do MEC. De acordo com o PAR elaborado e aprovado pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), o Estado de Roraima estaria recebendo em torno de R$ 619 mil para a realização de dois cursos de formação e acompanhamento pedagógico às escolas no ano de 2010. É provável que este dinheiro já tenha chegado na SECD/RR e espera-se que ele não tenha sido utilizado para outros fins ou que não fique preso a algum trâmite burocrático que inviabilize o seu uso e resulte na sua devolução para a esfera federal. A representante da SECD/RR não soube dizer se o dinheiro chegou ou não na secretaria.

Também foram repassadas à assembleia informações sobre o processo de debate e construção do Território Etnoeducacional Yanomami e Ye’kuana que em agosto contou com um grande encontro em Boa Vista, reunindo representantes yanomami de várias regiões, representantes do MEC, Funai, SECD/RR e ISA (http://www.socioambiental.org/nsa/detalhe?id=3158).

O tema proteção territorial também foi abordado durante a assembleia, com especial destaque para as denúncias de crescimento do garimpo e da expectativa de saída dos fazendeiros do Ajarani, uma vez que a Funai já decidiu sobre as indenizações a serem pagas. Os representantes da Funai que estavam presentes disseram que há uma grande expectativa de que com a criação da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye’kuana em maio deste ano, e com a contratação de novos funcionários por meio de concurso público ocorrido no primeiro semestre do ano, aumente a capacidade do órgão na proteção contra invasores.

O último dia foi dedicado à eleição da diretoria que conduzirá a organização por dois anos. Confira o resultado e como ficou a composição da nova diretoria no quadro abaixo:

Nova diretoria eleita da Hutukara


Presidente – Davi Kopenawa Yanomami (reeleito)
Vice-presidente – Maurício Ye’kuana


Primeiro Secretário – Trento Yanomami
Segundo Secretário – Déric Yanomami
Primeiro Tesoureiro – Mozarildo Yanomami
Segundo Tesoureiro – Atailto Yanomami
Primeiro Coordenador de Saúde – Dário Vitório Yanomami
Segundo Coordenador de Saúde – Kenedi Yanomami
Primeiro Coordenador de Educação – Ênio Mayanawa Yanomami
Segundo Coordenador de Educação – Bernardo Yanomami
Primeiro Coordenador de Terra e Ambiente – Gabriel Yanomami
Segundo Coordenador de Terra e Ambiente – Lúcio Yanomami
Conselho Fiscal - Zeca, Saldanha e Almeida