VIII ASSEMBLEIA GERAL DA HUTURARA 2016

Surto ameaça ianomâmis na Venezuela

Denúncia foi feita por agentes de saúde da Venezuela durante uma assembleia no Brasil, encerrada domingo

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Índios fazem fila para receber comida na 4ª Assembleia da Hutukara Associação Yanomami, região de Toototobi (AM)

Por MARCELO LEITE Folha de São Paulo -12/11/2010

ENVIADO ESPECIAL A TOOTOTOBI (AM)
Autoridades de saúde da Venezuela têm conhecimento desde 31 de julho de um surto de malária e talvez outras doenças entre índios ianomâmis nas aldeias Maiyotheri, Awakau e Pooshitheri, no município de Alto Orinoco (sul do país). Pelo menos 17 índios morreram.
A Folha apurou com agentes sanitários que podem ter sido mais de 50 vítimas.


Qualquer que seja o número exato, trata-se de 10% a 25% da população local. As causas ainda são incertas, mas entre elas está a precariedade do atendimento à saúde.

A denúncia foi apresentada por ianomâmis venezuelanos na Quarta Assembleia Geral da Hutukara Associação Yanomami, realizada em território brasileiro, na antiga aldeia Toototobi (AM), 340 km a oeste de Boa Vista (RR). Hoje, lá funciona um posto de saúde dentro da Terra Indígena Yanomami.


O encontro, encerrado no último domingo, durou uma semana. Reuniu por volta de 600 indígenas de várias aldeias, a maioria do Brasil.

Só em 13 de outubro a primeira equipe venezuelana de saúde chegou às áreas afetadas, após três dias de caminhada. Voltaram com o relato de 51 mortos, mas houve outras duas mortes depois.

As informações são imprecisas porque o local é remoto e as comunicações, precárias. Costumes ianomâmis interditam falar dos mortos.

Outro grupo, com técnicos especializados em malária, endêmica na região, retornou em 22 de outubro a Maiyotheri, de helicóptero. Colheram amostras de sangue.


Os exames revelaram 85% de casos positivos. Metade deles eram da forma mais grave de malária, causada pelo parasita Plasmodium falciparum.


FUGA DA EPIDEMIA
Contatados só em meados do século 20, muitos ianomâmis morreram com a disseminação de doenças por garimpeiros -sobretudo do Brasil- em busca de ouro. Gripe, sarampo, rubéola e malária são as principais.

Depoimentos gravados em vídeo pelo segundo grupo mostram índios acampados na mata. Ao primeiro sinal de epidemia ("xawara"), eles abandonam o "xapono", casa coletiva em geral circular.


Os agentes, parte deles de etnia ianomâmi, viram algumas cabaças em que os parentes guardam ossos calcinados dos mortos.

Esses restos são depois moídos e misturados com mingau de banana para consumo cerimonial em grandes rituais funerários, "reahu".

O restante das mortes foi estabelecido por meio dos depoimentos. Os índios afirmam que eram muitos os cadáveres para queimar conforme o ritual. Abandonaram corpos na mata, em cima de estrados, para depois recolher os ossos e queimar.

Médicos que viram o vídeo acreditam que não deve tratar-se só de malária. Em uma das aldeias, teriam morrido primeiro os adultos, mas a malária mata antes crianças.


Além disso, os índios relatam diarreias sanguinolentas e óbitos já um dia após iniciados os calafrios da febre. Isso não combina com malária.

Em 1996, na mesma área, uma epidemia de leptospirose e de febre hemorrágica causada por hantavírus matou vários indígenas. Foi quando teve início o atendimento de saúde na região.


Parte do serviço de saúde aos ianomâmis da Venezuela era prestada por missionários americanos da organização Novas Tribos. Eles foram expulsos do país por Hugo Chávez em 2005.
Há sete postos de saúde em torno de Maiyotheri, mas nenhum a menos de dois dias de caminhada. O atendimento depende de voos de helicóptero da Guarda Nacional Bolivariana, cujo convênio com o setor de saúde expirou em maio de 2009.


O repórter MARCELO LEITE viajou de Boa Vista (RR) a Toototobi (AM) a convite da Hutukara Associação Yanomami.

Governo diz que dá assistência a comunidades
FLÁVIA MARREIRO

DE CARACAS

O governo da Venezuela diz estar atento às mortes em ao menos três aldeias ianomâmi no sul do país.

"Vamos continuar a vigilância e a assistência. Temos mais horas de voo disponíveis [para o uso de helicópteros e aviões das Forças Armadas] para chegar às comunidades", disse à Folha Miguel Millán, diretor de Saúde para o Estado do Amazonas.

Millán diz que as horas de voo à disposição das equipes de saúde -seis ao todo- são adequadas para enfrentar o problema.

"Esse é o plano que temos com base na informação que temos. Se contatarmos mais comunidades, isso pode mudar. Vamos revisando."

Ele admite, porém, que há restrições para o uso de helicópteros.

Millán afirma que o governo trabalha com um número estimado de 17 mortos em três aldeias ianomâmis, desde agosto último: uma criança que morreu durante a visita da primeira equipe de saúde, em outubro, e 16 óbitos contabilizados com base em depoimentos dos indígenas e análise de antropólogos e médicos.

Com respeito à cifra de 51 mortos, o funcionário venezuelano lança algumas hipóteses. Na visão dele, pode ter ocorrido contabilização duplicada da mesma morte.

Aponta ainda a interdição tradicional dos ianomâmis para falar sobre mortos e a noção de tempo da etnia, distinta da ocidental, como possíveis fatores de distorção.

A Folha buscou contato com o Ministério para os Povos Indígenas desde anteontem, mas não teve resposta.


"A Terra está brava com o homem branco", diz líder yanomami Davi Kopenawa

davigermany

Com sábio carisma, xamã é "Dalai Lama da Floresta Tropical". Seu povo trava em Roraima batalha de vida ou morte contra garimpeiros e destruição ambiental. Deutsche Welle o entrevistou em Munique na estreia de "Amazonas".

 

Imagine abrir a porta e 20 estranhos lhe entrarem casa adentro, ocupando todos os cômodos, esgotando seus mantimentos, envenenando o ambiente, provocando doenças, agredindo, intimidando, deixando-o sitiado num quarto dos fundos, incapaz de sair para cuidar da própria subsistência. Por quanto tempo suportaria tal situação?

Projetado em proporções genocidas, é isso o que vem acontecendo com os índios yanomami nas últimas décadas. Segundo o antropólogo francês Bruce Albert, entre 1987 e 1990 havia no território deles, em Roraima, 40 mil garimpeiros, ou seja, cinco a seis vezes o total da população indígena. Além dos mortos em confrontos violentos, um quinto dos yanomami sucumbiu ao impacto ambiental do garimpo e às doenças do homem branco.

Durante alguns anos a invasão arrefeceu, porém a alta do metal nos mercados vem provocando uma nova corrida do ouro, e, com ela, mais saques, prostituição, conflitos, violência sexual, mais doenças, entre as quais, a aids. A presença dos homens do Exército brasileiro, ao invés de impor ordem, tem muitas vezes exacerbado a situação.

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"A ciência não é um deus que sabe tudo", diz líder ianomâmi

Davi Kopenawa diz estar contente com notícia de que sangue de seu povo será devolvido pelos EUA

DA REDAÇÃO (Folha de São Paulo - Ciência)

O líder ianomâmi Davi Kopenawa disse estar "muito contente" com a notícia de que as mais de 2.000 amostras de sangue de seu povo, que desde 1967 repousam em centros de pesquisa dos Estados Unidos, serão devolvidas à tribo. Conforme a Folha adiantou no último domingo, há um acordo sendo finalizado entre cinco universidades e o governo brasileiro para a devolução, que ainda não tem data. 
Da Alemanha, onde está para assistir a uma ópera que tem seu povo como protagonista, o líder indígena respondeu por e-mail, por intermédio do antropólogo Bruce Albert, a perguntas feitas pela reportagem. (CA)

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Brasil tenta reaver sangue ianomâmi

Uma proposta de acordo enviada pelo governo brasileiro em março a cinco centros de pesquisa americanos está prestes a resolver uma polêmica mundial que começou há mais de quarenta anos, entre geneticistas e antropólogos estrangeiros e índios ianomâmis.

A disputa tem origem em 1967, quando equipes lideradas pelo geneticista James Neel e pelo antropólogo Napoleon Chagnon recolheram milhares de amostras de sangue ianomâmi no Brasil e na Venezuela.

No ano 2000, o jornalista norte-americano Patrick Tierney os acusou em seu livro “Trevas no Eldorado” de, entre outras coisas, “comprar” o sangue com armas e presentes e conduzir pesquisas sem obter consentimento dos índios. Neel morreu naquele ano sem ter sido investigado. Chagnon foi inocentado pela Associação Americana Antropologia.

Além de levantar uma das maiores controvérsias éticas e científicas da antropologia ao redor do mundo, o livro horrorizou os ianomâmis ao apontar para a manutenção até hoje de sangue congelado de seus pais e avós em centros de pesquisa.

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