VIII ASSEMBLEIA GERAL DA HUTURARA 2016

Cabral e os índios

Fonte: http://psol50.org.br/site/artigos-e-entrevistas/521/cabral-e-os-indios


Segue viva a luta dos indígenas e defensores de prédio histórico no Rio de Janeiro, que abrigou o antigo Museu do Índio, hoje conhecido como Aldeia Maracanã. O governador, num primeiro momento, apostou na intransigência e reafirmou que não recuaria em sua decisão de destruir o prédio para construir o estacionamento de um shopping center esportivo. Mas teve que reconhecer o clamor popular pela preservação e reforma do prédio. O movimento social pleiteia a construção de um espaço cultural e de uma universidade indígena no local.

O governador anuncia agora que a área da Aldeia Maracanã se tornará um museu do Comitê Olímpico Brasileiro. Essa definição vertical desconsidera o valor simbólico da edificação, de 1862, que já foi sede do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), sob comando do Marechal Rondon, local em que foi desenhado o Parque Nacional do Xingu, e que abrigou a primeira sede do Museu do Índio, fundando por Darcy Ribeiro, que posteriormente foi transferido para Botafogo.

Como o prédio pertence à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o governo federal poderá rever a promessa de transferir para o Estado a edificação, e optar pela construção do Espaço Índio Vivo Aldeia Maracanã. É o que reivindicamos.

Registro nos anais da Casa proposta apresentada por indígenas que ocupam desde 2006 o prédio ao Governo Estadual:

Espaço Índio Vivo Aldeia Maracanã

Espaço Índio Vivo

1- O Espaço Índio Vivo será um complexo que ocupará toda a área do antigo Museu do Índio, localizado nas cercanias do Maracanã. Após a devida reforma, o espaço abrigará o Centro Cultural Índio Vivo, a Universidade Indígena, e a Aldeia Maracanã com suas estalagens. Todo o complexo será público e administrado pelos próprios índios.

2- O Centro Cultural do Índio Vivo será um espaço dedicado à apresentação da cultura e história indígena. A ideia não é negar o passado, mas dar vida história e cultura indígena, apresentada pelos próprios índios. A vida nas aldeias, as tecnologias de produção, sementes, as formas de organização, a espiritualidade etc serão tema de exposições. A vida dos índios que migram para grandes cidades, as dificuldades que encontram, as contradições do processo de adaptação e as tentativas de manutenção de suas culturas também serão temas de exposição e reflexão. Da mesma forma, as políticas governamentais direcionadas aos povos indígenas, a questão do acesso a terra por populações tradicionais, leis e direitos dos índios também serão temas de permanente reflexão crítica e debates. Por fim, o Centro Cultural proporcionará visitações ao nosso patrimônio histórico e arquitetônico, além da venda de artesanato, vestimentas e comidas e bebidas típicas, entre outras formas de expressão das culturas indígenas que sejam comercializáveis.

3- A Universidade Indígena será um local de produção e difusão do saber e cultura indígena, onde serão realizadas aulas, desenvolvidas pesquisas sobre os diferentes aspectos da vida do índio na sociedade contemporânea, além da apresentação de debates e atividades culturais sobre essa temática. A Universidade Indígena promoverá também uma ampla troca de conhecimento entre os povos ameríndios, suas lutas, cultura e inserção no mundo de hoje.

4- A Aldeia Maracanã, além de moradia para as famílias indígenas que há anos ocupam o lugar, funcionará como estalagem para os índios que chegam ao Rio de Janeiro, tantas vezes sem locais adequados de moradia, alimentação etc. Além de dormitórios, banheiros e refeitório, estes poderão ter acesso a casas típicas dos índios, ter contato com a terra, reunir-sem em volta de uma fogueira ou armar suas redes em uma árvore. Serão recebidos por índios que moram no local, podendo obter comidas e bebidas típicas, participar de atividades culturais, cultos etc[1].

5- Todo o complexo Espaço Índio Vivo será administrado por um Conselho Indígena, formado por representantes dos índios que moram no local e outros que representam povos localizados no Rio de Janeiro. Será formada ainda uma Câmara de Apoio Técnico, a ser apreciado pelos indígenas, com a participação de representantes de universidades, do Estado em suas diferentes esferas, de órgãos especializados como a Fundação Nacional do Índio, de entidades da sociedade civil, movimentos sociais e/ou pessoas indicadas pelo Conselho Indígena. A Câmara de Apoio Técnico subsidiará o Conselho Indígena, conforme as necessidades e demandas por esse apresentadas, servindo como um órgão consultivo e colaborando na realização dos projetos do Conselho Indígena para o Espaço Índio Vivo.

6- Durante o período de realização das necessárias obras no local, as famílias indígenas que ali residem e seus convidados poderão permanecer no Espaço. Caberá, portanto, a quem realizar as obras, além da preservação do patrimônio histórico e arquitetônico, garantir condições de moradia aos ocupantes durante as mesmas. Se for necessária alguma mudança na localização das casas ali existentes, essas devem ser realocadas dentro do próprio Espaço e com o consentimento de seus moradores.

Em seu pleno funcionamento, o Espaço Índio Vivo Aldeia Maracanã será um exemplo de respeito à história e cultura indígena no Brasil. Será um espaço autogestionado, onde imperam os direitos indígenas com o devido apoio do Estado e da sociedade civil organizada. Um espaço localizado ao lado do Maracanã, em região com boa infraestrutura urbana e de transportes, facilitando o contato da população carioca e de turistas com a cultura indígena e seus representantes. Será um espaço de cidadania, de resgate de nossa história e, sobretudo, um espaço de vida.