VIII ASSEMBLEIA GERAL DA HUTURARA 2016

Entrevista: Davi Kopenawa Yanomami Programa Roda Viva 1998

thumb_davifiona

Foto: Fiona Watson

Paulo Markun: Boa noite! Ele diz que os brancos desenham suas palavras porque o seu pensamento é cheio de esquecimento e que o dos índios não é. Eles guardam e passam para as crianças as palavras dos seus antepassados, pois assim elas renovam e ampliam os pensamentos. No centro do Roda Viva esta noite o líder indígena Davi Kopenawa Yanomami. Ele é um dos participantes do evento Brasil 500 anos – aqui o material do Brasil 500 anos - que o Instituto Itaú Cultural, a Funarte [Fundação Nacional de Arte, fundação do governo que promove estudos, pesquisas, serviços e apresentações artísticas nas áreas das artes visuais, teatro, cinema, vídeo, dança e outros], o Ministério da Cultura estão promovendo já como parte das comemorações dos 500 anos do chamado Descobrimento do Brasil. Um dos ciclos desse evento, "A outra margem do Ocidente", reúne, até o dia cinco de novembro, no Itaú Cultural da Avenida Paulista, aqui em São Paulo, e no Palácio da Cultura do Rio de Janeiro, 27 filósofos, antropólogos e historiadores do Brasil e do exterior para discutir as sociedades indígenas, o tema do Roda Viva desta noite.

 

[Comentarista]: Na descoberta do Brasil, calcula-se que 4 ou 5 milhões de índios viviam aqui, divididos talvez em 1400 tribos ao longo de todo o território, não se sabe ao certo. Hoje são pouco mais de 300 mil, em 220 sociedades, menos de 10% do que eram na chegada dos descobridores. Passado o primeiro momento de um possível encanto no encontro desses dois povos tão diferentes, a história dos índios brasileiros seguiu o mesmo rumo da de tantos outros povos nativos subjugados de forma cruel à cultura do mundo branco ocidental. Quase cinco séculos depois, o pouco que restou daquela sociedade diferente, que descobridores e colonizadores não conseguiram entender e aceitar, tenta se organizar para garantir a sobrevivência possível. Davi Yanomami é um dos raros líderes indígenas a assumir a dianteira da batalha pela defesa dos direitos dos povos nativos junto aos brancos. Ele nasceu na comunidade yanomami de Roraima, uma das maiores do Brasil. E em seu primeiro contato com o homem branco, pode ter revivido o sentimento experimentado por seus antepassados diante da mesma situação. Líder espiritual e político de seu povo, Davi Yanomami já cumpriu uma longa jornada pelos gabinetes de Brasília e até da ONU [Organização das Nações Unidas] para conseguir a demarcação do território yanomami. Mas as fronteiras indígenas ainda não se tornaram barreiras à exploração branca, que segue fechando o cerco em torno das aldeias por todo o país. Ameaçados pelo fogo das grandes queimadas nas fazendas vizinhas, encurralados por madeireiros e garimpeiros, que só deixam destruição e morte no rastro da busca do ouro, os índios brasileiros estão definhando e suas crianças têm um fardo pesado pela frente. Entre brincar e descobrir como exercer a subsistência, precisam aprender ou reaprender a própria língua, correr atrás de uma identidade cultural que estão perdendo ou que já foi perdida entre os que migraram para as cidades e se transformaram em índios urbanos, gente sem rumo e ainda mais pobre. Os que ficaram nas aldeias não podem se preocupar apenas com a caça ou a pesca. Precisam refazer a vida. E para isso procuraram também os espíritos da floresta, pedindo paz, futuro, proteção à natureza. Eles deixam, nas palavras de Davi Yanomami, o alerta de que a destruição branca terá seu preço. “Brancos não sabem segurar o céu no seu lugar. Eles também acabarão morrendo”. Davi Yanomami.

[Yanomami significa ser humano. O povo que leva esse nome caracteriza-se por uma sociedade de caçadores-agricultores da floresta tropical do norte da Amazônia cujo contato com a sociedade nacional é, na maior parte do seu território, relativamente recente. Seu território cobre, aproximadamente, 192.000 km², e situa-se em ambos os lados da fronteira Brasil-Venezuela entre as nascentes da região Orinoco - Amazonas (afluentes da margem direita do rio Branco e esquerda do rio Negro). Esse povo constitui um conjunto cultural e lingüístico composto de quatro subgrupos adjacentes que falam línguas da mesma família (Yanomae, Yanõmami, Sanima e Ninam). A população total dos Yanomami, no Brasil e na Venezuela, é hoje estimada em cerca de 26.000 pessoas. No Brasil, a população yanomami é de cerca de 12.500 pessoas, repartidas em 188 comunidades (censo Funasa). A terra indígena yanomami cobre 96.650 km² de floresta tropical e foi homologada por um decreto presidencial em 25 de maio de 1992.]

Paulo Markun: Para entrevistar Davi Yanomami, nós convidamos os jornalistas: Ulisses Capozoli, repórter da área de ciência e tecnologia do jornal O Estado de S. Paulo; Gilberto Nascimento, sub-editor de Brasil, da revista Isto É; Dilea Frate, diretora geral do programa Jô Onze e Meia, do SBT; a fotógrafa Cláudia Andujar, secretária executiva da Comissão Pró-Yanomami; o antropólogo Beto Ricardo, pesquisador do Instituto Sócio-Ambiental de São Paulo; a jornalista Rosa Gaugirtano, repórter fotográfica; e o sociólogo Laymert Garcia, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Davi, boa noite!

Davi Yanomami: Boa noite!

Paulo Markun: Esta é a primeira vez que eu faço um programa com um índio e também é a primeira vez que eu vejo tanto bichinho dentro do estúdio [câmera mostra pequenos insetos voadores ao redor da lâmpada]. Você acha que uma coisa tem a ver com a outra, que eles estão aqui por alguma razão?

Davi Yanomami: Eu acho que esse bichinho, eles tá aqui comigo pra você pensar o movimento da floresta, porque dentro da floresta tem muito desses daí. Então, eu estou aqui... ele tá querendo aparecer também como eu na televisão e também aparecer na televisão como representante da terra.

Paulo Markun: E esses bichos e todas as coisas que tem na floresta, elas ficam fora de lugar quando saem de lá? Na cidade, por exemplo, a gente ainda encontra alguns tipos de bichos e até de árvores, e de coisas, mas não tem aquele conjunto que é a floresta, tem?

Davi Yanomami: Tem, tem muito esse aí [Davi pensa que Markun perguntou sobre os insetos que rodeavam a lâmpada do estúdio]. Vocês chamam cupim. Nós chamamos “alam’conaxip”. Então toda floresta tem. Nas montanhas, na beira do rio e no lavrado tem esse cupim grande, [onde] eles mora.

Paulo Markun: E você que já esteve numa porção de cidades grandes, né? Você já esteve em Nova Iorque, teve em Brasília, onde mais?

Davi Yanomami: Primeiro conheci a cidade de Boa Vista, depois fui conhecendo Manaus, depois Brasília...

Paulo Markun: Cada vez uma cidade maior...

Davi Yanomami: São Paulo, depois para o Rio e depois para o outro lado do mundo. Eu conheci assim.

Diléa Frate: O que é que te metia medo no branco?

Davi Yanomami: Primeiro eu tinha medo dos brancos, quando cresci e me reagi. Reagi pra lutar, pra defender o meu povo. Então esse é que... O xabori me [deu] criou coragem para falar com vocês brancos, para respeitar nosso direito. [xabori: nome usado tanto para designar uma entidade espiritual - o Espírito Criador - como para denominar o pajé, líder espiritual da tribo. Há também o ritual do xabori, rito central yanomami, no qual o pajé, após inalar o pó yakoana, extraído da árvore Virola, entra numa espécie de transe durante o qual é capaz de contatar espíritos de ancestrais e forças da natureza. Graças a esse contato, pode desempenhar funções de cura]

Paulo Markun: O que é o xabori?

Davi Yanomami: Xabori é o [palavra incompreensível] espírito. Espírito que protege, espírito que anda em qualquer lugar. Espírito que qualquer gente que usa como rezar. Então, nós chama "xamã", "xapïribë" [outros nomes para xabori].

Paulo Markun: Xamã fala com esse espírito?

Davi Yanomami: Sim, xamã a gente usa pra proteger as terra, pra proteger a aldeia, proteger povo e pra fazer um trabalho quando a pessoa tá doente, da aldeia... Então a gente usa uma “yãkõana” [alucinógeno], um yakoana de uma árvore, que a gente tira o leite dela pra usar pra poder chamar o xapïribë. Sem yakoana, ninguém vê. Só tomando pó de yãkõana, os olhos fica diferente pra poder enxergar... O xabori vem de longe... e para poder ver o caminho dele.

[Em suas sessões espirituais, os pajés inalam o pó yãkõana, considerado como a comida dos espíritos. Sob seu efeito, dizem "morrer": entram num estado de transe visionário durante o qual chamam a si e "fazem descer" vários espíritos auxiliares, com os quais acabam se identificando, imitando as coreografias e cantos de cada um em função da sua mobilização na pajelança. Assim, quando "seus olhos morrem", os pajés adquirem uma visão ou um poder que lhes dá acesso à essência dos fenômenos e ao tempo de suas origens, portanto, à capacidade de modificar seu curso.]

Paulo Markun: Só gente grande toma esse pó, ou não? Ou criança também?

Davi Yanomami: Não, criança não pode tomar. Nem mulher não pode tomar. Só quem quer xabori, quem quer ficar pajelança, quem quer trabalhar com saúde, cuidar de saúde, eles podem usar.

Ulisses Capozoli: Ô, Davi, a gente fez uma viagem há dois anos atrás pela Venezuela - você foi junto com a gente lá no Orinoco - e nós viajamos por um dez dias pela estrada de terra. Você lembra, né? E você falou muito nessa história de xabori, não? Uma pessoa qualquer pode fazer essa invocação do xabori? Precisa ter uma escolha? Como é que é isso, como é que é definido isso?

Davi Yanomami: É assim: a nossa comunidade escolhe o xabori, escolhe uma pessoa que quer, está interessada em virar xabori, porque xabori é uma coisa fácil não, xabori é difícil...

Ulisses Capozoli: Por exemplo, por que é difícil?

Davi Yanomami: Porque eles não se mostra... Pra mostrar o corpo, tem que usar primeiro yãkõana, tem que deixar toda a sua comida, não pode mais comer, não pode tomar água, não pode andar, não pode tomar banho, porque se você quer virar pajé, tem que deixar tudo. Tem que deixar para usar depois de novo. Ser xabori não é como de brincadeira, não, é sério mesmo, porque a gente aprende com energia, energia da floresta... e o xabori é algo especial... São bonitos! Outros são brilhoso, também tem outro espírito do mal, espírito bom...

Ulisses Capozoli: Quando você conta essa história para um branco, você acha que as pessoas são capazes de entender esse tipo de coisa? Elas se sensibilizam com isso? Elas percebem que isso é uma realidade? Ou você acha que as pessoas não conseguem entender isso, fica um pouco de fantasia na cabeça delas? Como é que você vê um branco quando conta uma história dessas, Davi? Como você contou pra gente naquelas noites longas de viagem, por exemplo.

Davi Yanomami: Eu acho que eles podem entender melhor do que ter que ficar explicando todo o tempo. Eles nunca viam, nunca ouviam, nunca ouviam o próprio yanomami falando sobre xabori. Então, pessoal da cidade quer ouvir muito. Tem que ver também como o xabori está fazendo... Vai [deve ir] lá para a aldeia, lá para o mato, para acreditar, olhar de perto. Eu tô aqui falando com vocês... A minha aldeia tá longe, mas eu tô tentando explicar pra vocês, pra vocês entender. E xabori pra você entender tem que ouvir muito as palavras dos índios. Também tem que olhar yãkãana, “ipó” [pó alucinógeno]. Tem que olhar como os pajé prepara pra usar. Porque esse yãkõana...então fica...uma pessoa fica bêbado...Yãkõana é tipo maconha... Não é maconha, não, é para os yanomami usar para...

Dilea Frate: E é tirado de que árvore?

Davi Yanomami: Yãkõana.

Dilea Frate: Yãkõana é a árvore...?

Davi Yanomami: É uma árvore...

Dilea Frate: Vocês raspam a árvore...?

Davi Yanomami: A árvore tem um leite entre [a] casca. Então a gente tira a casca, então a gente esquenta no fogo. Então, o leite da yãkõana, ele sai. Depois a gente derrama com a vasilha, com “raboca” [termo para vasilha], fazer de panela... Então a gente deixa ferver, depois que começar a secar, quando está quase secando, a gente tira, bota no sol para poder ficar seco... Depois fica fazendo em pó...

Dilea Frate: E você se comunica com os espíritos ou é só visão?

Davi Yanomami: Não, a gente comunica. A gente comunica porque esse yãkõana a gente usa primeiro... Tem que estudar muito para poder se comunicar com xabori. Se a gente não estudar bem, a gente fica sem saber nada.

Laymert Garcia: Davi, uma vez você disse que os xaboris são os inventores das coisas. Até você pegou um objeto e disse: “Esse objeto, por exemplo, esse é um brinquedo de xabori”. Como é que é essa história de xabori inventar? É xabori que inventa as coisas?

Davi Yanomami: Xabori que inventa? Como é? [não entende a pergunta]

Laymert Garcia: É. Você uma vez pegou na minha casa umas frutas que tinha lá, de madeira, e aí você falou: “Esse é um brinquedo de xabori”. E aí eu achei curioso aquilo porque eu falei: “Ué, mas como é que é essa história?" Daí você falou: “Não, é xabori que inventa as coisas”. Então eu queria saber com você, um pouco, como é que é essa história do xabori inventar.

Davi Yanomami: Xabori inventar... que eu falei na sua casa, porque você pegou a coisa do xabori. Fica pendurado na sua parede. Então, ele...fica...a “pruma” dele [ele segura o adereço de penas preso a sua nuca], a [palavra incompreensível] do xabori tá lá na sua casa... como representando...pra proteger a sua casa. E xabori tá achando que você é a favor do xamanismo. É por isso que você está usando na sua casa. Se você tiver contra ele, você não poderia usar.

Beto Ricardo: Davi, quando você era pequeno, você foi criado pelo Roberto, não foi? Ele era uma pessoa muito importante dos yanomamis, que morreu faz algum tempo atrás. Como foi essa sua... Quando você era criança, o que ele te ensinou? Como ele te ensinou?

Davi Yanomami: Então eu sou criado do [pelo] Roberto desde pequeno. Ele ensinou muita história. Ele contou muito... E com esta, com Roberto, que eu... Ele passou as palavra pra mim... Ele contava tudo pra mim entender. Eu pedia repetido: “Repete de novo”. Agora, se ele falar uma vez, ninguém entende. Tem que fazer três, quatro vezes pra explicação. Explicar bem direitinho pra poder usar como ele passou pra os neto. Ele é muito legal comigo, ele me criou, ele me protegeu e ensinou também de xabori... Esse negócio de caçar, esse negócio de falar de coragem pras outras pessoas... Ele me falou que não tem... que não tem medo pra estar falando com os outros, que tem que mostrar coragem de homem. Assim que ele me ensinou.

Cláudia Andujar: Davi, o Roberto que te criou, porque seu pai morreu, ele te ensinou a ser xabori, não? Ele foi um dos teus professores, como você fala de “aprender a ser xabori”. É isso mesmo?

Davi Yanomami: Ele casou [com] a minha mãe. Quando meu pai morreu, ele casou com minha mãe. Aí ele cuidou de mim pra ensinar, pra caçar, pra trabalhar e também ele explicou pra mim pra aprender com vocês, com os brancos...ouvir... e assim que ele me ensinou. E depois quem me ensinou pra ser xabori foi o Lorival, o meu sogro.

Cláudia Andrujar: Agora, se você é xabori, você fala que tem xaboris por todo o lado e que eles ajudam a curar, a fazer muitas coisas naquele mundo que a gente não percebe. Qual é a diferença entre você, um xabori, e aqueles xaboris com os quais você se comunica, aqueles que você recebe, aqueles que você invoca para te ajudar? Qual é a diferença entre um e o outro? Você é um xabori, não é? Mas você trabalha com os xaboris?

Davi Yanomami: Então, eu sou xabori. Eu pedi pra ser xabori pra ajudar meus parente, porque eu preciso ajudar meus parente. Ser xabori serve pra curar uma pessoa, pra tirar doença... É doença de floresta...

Paulo Markun: Doença de branco não tira, não?

Davi Yanomami: A doença do branco não tira, porque é doença da cidade. A gente cura a doença da floresta, porque é doença conhecida. Sabe curar, descobrir pelo corpo da gente. Xabori é pra isso, pra deixar um amigo ficar bom. A doença da cidade é só médico que cura. Médico examina, tira sangue...

Paulo Markun: Mas já teve tempo que yanomami achava que, por exemplo, que a medicina, a ciência do branco não funcionava. No começo era assim ou desde o começo o yanomami achou que a medicina do branco funcionava?

Davi Yanomami: Não. A nossa xabori funciona até hoje pra doença. Porque antigamente ninguém não sabia que vocês têm médico, ninguém sabia que vocês têm tudo pra deixar uma pessoa ficar boa. E nós já tinha... já tinha xabori pra curar, pra se comunicar, pra se preparar, já tinha tudo isso. Depois que chegou os branco lá na nossa terra, aí que prejudicou nossa saúde. Então, nós tentamos, os velhos xaboris tentaram, mas não conseguiram, porque era outra doença, foi trazido de longe...

Beto Ricardo: A sua mãe morreu de sarampo, não foi, Davi?

Davi Yanomami: [Balança a cabeça confirmando]

Beto Ricardo: E xabori não conseguiu dar conta quando chegou o sarampo?

Davi Yanomami: A minha mãe morreu de sarampo. Porque esse missionário que trabalhou lá, ele foi tirar suas férias na cidade dele. Ele foi lá na Inglaterra. Ele voltou pra Manaus, Boa Vista, e ele trouxe essa doença, o sarampo. Então, todo mundo pegou e transmitiu, até minha mãe morreu.

Rosa Gauditano: Muitas pessoas morreram?

Davi Yanomami: Morreram muitos meus parentes, até minha mãe morreu dessa doença. Então xabori não conseguiu, porque era outra doença.

Rosa Gauditano: Davi, e hoje? Como é que está? Ainda tem sarampo? As pessoas morrem muito de sarampo ainda na sua região?

Davi Yanomami: Nós hoje já tá tudo vacinado. Todo mundo recebeu vacina de sarampo

Rosa Gauditano: E todo mundo lá da aldeia Demini ou das outras aldeias também?

Davi Yanomami: Outras aldeias também...

Rosa Gauditano: Todas as aldeias...

Davi Yanomami: Porque até teve os que morreram porque não estavam vacinados. A autoridade nossa não pensou antes em ir lá para nossa aldeia, é por isso que morreram. Agora eles pensaram em levar vacina, pra fazer vacina, pra proteger nós.

Rosa Gauditano: E agora, quando as pessoas ficam doentes, o que mais que elas têm, que outras doenças elas têm agora? Mesmo depois das vacinas.

Davi Yanomami: A gente está sofrendo mais da doença da malária, [fala duas palavras incompreensíveis], epidemia... Então, os três tipos de doença que tá matando mais.

Ulisses Capozoli: Lá na sua aldeia inclusive, Davi, no Toototobi?

Davi Yanomami: Em todo o Toototobi, Balawaú [aldeias do extremo sul da terra indígena yanomami, em Roraima].

Ulisses Capozoli: Mas Toototobi agora não tem mais garimpeiro ali perto?

Davi Yanomami: Garimpeiro saiu, mas a doença não saiu. A doença ficou no lugar dele. A doença que permanece porque os garimpeiro que trabalhou deixou lixo, deixou os óleo no rio... contaminado. Eles deixaram buraco cheio de água, aí mosquito se cria, fazem o ovo e aí depois eles fica procurando alimentação. A alimentação pra eles somos nós. Eles estão procurando o nosso sangue. Então os “chupa-sangue” estão transmitindo a doença de malária.

[Dezenas de pistas clandestinas de garimpo foram abertas no curso superior dos principais afluentes do Rio Branco entre 1987 e 1990. O número de garimpeiros na área yanomami de Roraima foi, então, estimado em 30 a 40 mil, cerca de cinco vezes a população indígena ali residente. Apesar do seu grave impacto demográfico, essas invasões foram de curta duração (até 1990), possibilitando que a sociedade yanomami escapasse da dizimação e da aculturação. No entanto, atualmente, ainda existem núcleos de garimpagem na terra yanomami, onde seguem espalhando violência e graves problemas sanitários e sociais.]

Dilea Frate: E a malária não existia antes do branco chegar?

Davi Yanomami: Não. Muito pouco.

Gilberto Nascimento: Davi, você tem um número de quantos índios morreram nos últimos anos lá? Ou nesse ano, ou no ano passado, ou num período mais recente...

Davi Yanomami: Olha, eu não sei quantos que morreram [de] meus parente, porque é difícil pra contar com a aldeia, com a aldeia...

Paulo Markun: Agora, está morrendo mais gente do que está nascendo, ou não? Ou já nasce mais yanomami do que morre?

Davi Yanomami: Tão morrendo demais.

Paulo Markun: Pois é, antigamente, nos anos 1980, começo dos anos 1990, morreu muita gente, não é isso?

Davi Yanomami: Foi.

Paulo Markun: Mas hoje em dia, nasce mais menino do que morre gente?

Davi Yanomami: Não. Em outro lugar, outras aldeia tão nascendo, tão nascendo as criança e outras tá morrendo, outro lugar como Awaris, como Paapiú, Xidea, Homoxi [aldeias yanomamis], e lá pra divisa de Roraima e do Amazonas, que a gente mora, tem meninos que tão crescendo... No Toototobi também tá aumentando as criança, e no [Alto] Catrimani [aldeia yanomami] também tão aumentado...

Paulo Markun: Mas você acha que yanomami não vai acabar? Que o povo yanomami não vai acabar?

Davi Yanomami: Não. O povo yanomami não vai acabar se a nossa autoridade cuidando [cuidar], ajudando [ajudar], tratar com malária... [sendo interrompido]

Gilberto Nascimento [interrompendo a resposta de Davi] E eles vêm tratando satisfatoriamente, Davi?

Davi Yanomami: Eles não vão acabar, não. Se o nosso governo não ajudasse... Se ele ajudar, vamos crescer [continua sua resposta anterior, sem responder à pergunta de Gilberto]

Gilberto Nascimento: Mas, Davi, as autoridades vêm ajudando satisfatoriamente? A Funai [Fundação Nacional do Índio, órgão do governo brasileiro criado para estabelecer e executar a Política Indigenista no Brasil, dando cumprimento ao que determina a Constituição de 1988], as autoridades em geral estão tomando medidas para combater essas doenças?

Davi Yanomami: A responsabilidade da Fundação Nacional da Saúde [Funasa] é do governo. Então a Funai tá aí... A Funai só protege pra vigiar a terra demarcada... A Funai cuidou antes de saúde. Agora quem tá cuidando é o Fundo [Fundação] Nacional de Saúde, então eles [têm] responsabilidade. [Por] Outro lado, a Funai tem responsabilidade de demarcação, pra vigiar, pra não deixar entrar os garimpeiro, nem fazendeiro. Então eles têm trabalhado nisso.

[Em agosto de 1999, o Ministério da Saúde, por intermédio da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), assumiu a responsabilidade de estruturar o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, articulado com o Sistema Único de Saúde (SUS). A inexistência, até então, de uma política setorial no SUS que atendesse à diversidade dos povos indígenas comprometia o acesso adequado às ações de saúde, impossibilitando o exercício da cidadania e a garantia das diretrizes estabelecidas na Constituição, no que diz respeito ao atendimento de saúde diferenciado dos índios.]

Cláudia Andujar: Davi, como que foi quando você chegou a ver os primeiros brancos? Quando você nasceu você não havia visto branco, não é? Depois, de repente, eles chegaram lá na aldeia. Como que foi? Onde que foi?

Davi Yanomami: Eu não conhecia. Como eu falei, eu não conhecia nenhum homem branco. Nem minha mãe, nem meu pai, nem os parente. Não conhecia nada, só os velhos e as velhas que contavam para nós. Mas pra ver mesmo quando você estava nascendo, crescendo, pra ver logo os branco é difícil. Mas eu nunca pensei encontrar um branco.

Gilberto Nascimento: E você era menino quando eles chegaram?

Davi Yanomami: Sim, quando era menino, eles chegaram. Não é garimpeiro, não. Era a Comissão de Limite que chegou lá na maloca Caxibi.

[Os primeiros contatos dos yanomanis com os brancos foram feitos por militares da Comissão dos Limites, Serviço de Proteção do Índio, balateiros ou viajantes e datam das primeiras décadas do século XX. Entre os anos 1950 e 1960, algumas missões católicas e evangélicas se instalaram de modo permanente na região. A patir de meados da década de 1970, os yanomanis tiveram as formas mais intensas e letais de contato com a sociedade nacional. A abertura, no sudeste do território yanomani, de um trecho da estrada Perimetral Norte, no período de 1973 a 1976, facilitou a entrada de garimpeiros - a "corrida do ouro" - o que trouxe uma série de consequências tanto para a saúde e segurança dos yanomanis (epidemias de malária, infecções respiratórias, violência desenfreada) quanto para o ambiente.]

Laymert Garcia: E aí? Você foi correndo ver, você ficou curioso ou não?

Davi Yanomami: Sim, eu não fiquei curioso, não, eu fiquei com medo [risos]. Fiquei com medo porque eles ficavam fazendo barulho, gritando, falando diferente... e cheiro de cigarro.

Gilberto Nascimento: Davi, hoje é verdade que os índios mais jovens, adolescentes, eles têm vontade ou manifestam o desejo de conviver, de ser educado junto aos brancos? Isso acontece muito? É verdade?

Davi Yanomami: Acontece sim. Acontece porque eles querem deixar, perder... Eles pega costumes dos branco. Ele vai pra a cidade, vai provando o chá do branco, provando a bebida... O branco vai dando bebida para ele deixar como [de ser] índio. Mas, por mim, a minha parte é diferente. Eu pode falar a sua língua, português, mas eu não virar branco. Eu pode usar roupa, eu pode usar sapato, mas eu não vou deixar, esquecer a minha cultura, a minha tradição, a minha língua porque é minha.

[Entrevistador não identificado]: E a língua continua sendo ensinada também para os jovens?

Davi Yanomami: Continua falando o yanomami.

Ulisses Capozoli: Davi, deixa eu te perguntar uma coisa. Você mantém as raízes, tal, mas eu me lembro que você me contou uma história, aliás, você falou: “Eu não vou deixar que aconteça isso”. E é a seguinte: vocês prometem as filhas em casamento muito jovens, crianças, não? E eu sei que você tem três menininhas, três gatinhas... E você falou: “Eu não vou fazer isso. Elas vão poder escolher o marido que elas quiserem e eu vou romper com o costume do meu povo". Então, de certa forma, essa convivência sua com o branco alterou também os seus costumes, não? E você mantém essa idéia ainda de deixar que as suas filhas escolham os maridos futuros, ou como é isso?

Davi Yanomami: A minha opinião para as minhas filhas é pra casar com um yanomami.

Ulisses Capozoli: Sim, com yanomami, mas que elas possam escolher, não?

Davi Yanomami: Não, porque eu pode escolher quem é mais trabalhador, quem é mais esperto, quem gosta de trabalhar...

Paulo Markun: Mas você que vai escolher?

Davi Yanomami: É. Eu e a mãe delas também. Tem que olhar o olho da gente, tem que ficar olhando...

[Entrevistador não identificado]: Você mudou, mas nem tanto... [risos]

Paulo Markun: Mas se muito branco fizesse isso, tinha coisa que ia melhorar por aqui [risos]. As feministas que o digam...

Dilea Frate: Então, qual o seu critério de julgamento? Você estava falando do seu critério de julgamento. Tem que olhar no olho, o que mais?

Davi Yanomami: Bom, pra conhecer uma pessoa, tem que olhar quando você tá trabalhando, que gosta de trabalhar, gosta de fazer as coisas: comida, caçar, pescar, limpar o chão...

Dilea Frate: Tem muito índio vagabundo?

Davi Yanomami: Tem sim. Tem índio como aqui na cidade.

Laymert Garcia: Você estava falando de olhar, mas lá, hoje, na abertura do evento da Funarte, você falou que tem brancos, que os brancos olham por cima para enganar, mas estão olhando por baixo da terra para ver o que tem de baixo da tela. Como é que é essa história de olho de branco que é para cima e para baixo?

Davi Yanomami: O olho dos branco é como lua, ele está olhando muito longe, do outro lado do planeta... Os branco, eles olha pra gente pra cima... Acha graça, fica oferecendo cafezinho, uma camisinha [camisa], mas no fundo, no fundo ele não te mostra o que ele quer. Ele quer fazer segredo, escondido... mas ele não vai dizer: “Olha, eu vô querer esse, índio. Índio, eu quero ouro. Eu vou querer madeira”, eles não vão dizer nada.

Paulo Markun: Mas, Davi, você tem amigo branco, né? Porque às vezes, sabe, ouvindo você falar, dá a impressão que todo índio é bom e que todo branco é mau. É assim que acontece ou você tem amigos índios? Eu sei, por exemplo, que a Cláudia é uma pessoa que é muito amiga dos yanomami.

Davi Yanomami: Sim, eu tenho os amigos... meus parentes. Tenho outros que nunca me conheceram...

Paulo Markun: Mas você nunca ficou amigo de um branco?

Davi Yanomami: Eu tenho amigos brancos. Não são muito, não, eu tenho pouco...

Dilea Frate: Você acha que é difícil se fazer se compreender pelos brancos?

Davi Yanomami: Hum?

Dilea Frate: É difícil um índio... Uma pessoa como você, que fala outra língua... É outra cultura, é outra... É difícil você conseguir se fazer compreender, se fazer entender pelo branco? Você se mostrar para o branco... Ao contrário, você diz que o branco não se mostra. O índio se mostrar para o branco, você acha que é difícil o branco compreender o que você tem a dizer?

Davi Yanomami: Eu não entendi, não.

Dilea Frate: Por exemplo, quando você passa uma mensagem, você acha que o branco entende o que você tem a dizer?

Davi Yanomami: Quando o índio fazer a mensagem pro branco?

Dilea Frate: É.

Davi Yanomami: Para fazer amizade [com] branco tem que ser você é bom pra amigo o índio [você tem que ser bom amigo para o índio]. Tem que gostar realmente. Não enganar com o índio. Assim que nós indígenas se conhece. Conhecer o seu jeito pelos olhos, pelos...

Dilea Frate: Pelas intenções...Você acha que existe uma linguagem... É possível uma linguagem entre o branco e o índio? E essa linguagem qual é? Quer dizer, seria uma linguagem do coração... Que linguagem seria essa? Linguagem do olhar, não sei...

Ulisses Capozoli: Eu acho que você tem essa gente, esses amigos. Acho que a Cláudia é um, o Carlos Aquino é outro, o Walter lá da Funai... Eu sei que vocês são pessoas bastante próximas, que têm uma confiança e um afeto grande. Eu acho que essa distância que, às vezes, você coloca, Davi, entre índio e branco, me parece que ela é verdade em parte, mas ela não é completamente verdade. Você tem bons amigos brancos e tem pessoas que eu sei que você confia. Eu sei que você confia na Cláudia, eu sei que você confia, por exemplo, no Carlos Aquino, não tanto quanto se fosse yanomami, aliás, eu acho que o Aquino, principalmente, é meio yanomami já, não é? [risos]

Davi Yanomami: A minha opinião, eu tenho bastante amigos que conhece o meu trabalho, que conheceu o meu trabalho, que confia no meu trabalho... Eu tenho amigos. Mas que eu estou empatando trabalho deles na minha aldeia, na minha terra, são os mineradores, garimpeiros... porque eu não [os deixo] deixa pra trabalhar na minha terra, então, eles ficam contra mim...

Beto Ricardo: Davi, quando é que você começou a pensar, o teu povo começou a pensar em demarcação de terra? Por que, antes, ninguém se preocupava com isso, né? Quando é que você começou a pensar em fechar a floresta do yanomami? Como é?

Davi Yanomami: Eu também não pensava. Eu pensei... Eu aprendi pelas outras lideranças, como: Álvaro Tucano e outras lideranças, meus amigos lá de Roraima, os macuxi [tribo indígena da região das Guianas, entre as cabeceiras dos rios Branco e Rupununi, território partilhado entre o Brasil e a Guiana], e o meu amigo que encontrei... Primeira vez que eu encontrei o meu amigo Ailton Krenak [líder indígena da etnia krenak que em 1987, no contexto das discussões da Assembléia Constituinte, foi autor de um gesto marcante que comoveu a opinião pública: pintou o rosto de preto com pasta de jenipapo enquanto discursava no plenário do Congresso Nacional, em sinal de luto pelo retrocesso na tramitação dos direitos indígenas]. Então, ele sofreu primeiro aqui em São Paulo. Ele sofreu pelos garimpeiros que procura ouro, diamante. O povo dele sofreu aqui. Então, ele me encontrou, ele me ensinou, falou que não é bom, falou pra defender, pra lutar, pra sair a demarcação, a Funai demarcar, o governo demarcar... Então, assim que eu comecei a entender e depois eu encontrei os problemas que não é bons. Então, que é bom lutar para conseguir o governo demarcar a nossa terra.

Beto Ricardo: Mas essa luta foi difícil, foi longa né?

Davi Yanomami: Foi difícil, porque essa política de vocês, do branco, não é fácil para o índio, não, é difícil mesmo...

Laymert Garcia: Quer dizer, então, que você pode ter alguns amigos índios, mas que, em geral, os brancos de certo modo, têm uma política muito ruim com os índios?

Dilea Frate: E por que é que é tão difícil?

Davi Yanomami: Porque [a gente] não conhece essa palavra. A política nunca entrou na cabeça, no pensamento... Porque é diferente. A política, na nossa convivência, no nosso pensamento, não tem. A política nossa é diferente: pra proteger, preservar terra...

Paulo Markun: Mas índio não tem inimigo também? Porque tem tribo de índio que briga com a outra, tem, às vezes, do mesmo grupo de índio que brigam um com o outro, não tem? E isso não é política?

[entrevistador não-identificado]: E tem rapto de mulheres entre os yanomamis, por exemplo, não tem, Davi?

Davi Yanomami: Quando eu era pequeno os parentes brigavam muito. Briga de mulher...

Dilea Frate: Por terra também?

Davi Yanomami: Não.

Dilea Frate: Por terra não, né? Aí é que está a questão, não tem essa coisa do branco.

Davi Yanomami: Não tem essa briga de terra nossa, só vocês têm briga de terra e para tomar a nossa terra...

Paulo Markun: Mas tem briga de inimigo, de família, de gente que não se gosta, de índio com índio?

Davi Yanomami: Tem sim...

Paulo Markun: Ainda tem hoje em dia?

Davi Yanomami: Agora na minha aldeia não tem. Alguns lugar têm...

Paulo Markun: Por que que não tem mais?

Davi Yanomami: Porque a gente continua fazendo isso, mas os antropólogos que trabalham na nossa aldeia, eles falam mal da gente [risos]. Então, tem que controlar.

Rosa Gauditano: Davi, e hoje em dia você ainda se encontra com os outros líderes indígenas que você antes conversava e que te ensinaram um monte de coisas sobre a demarcação, sobre organizar melhor o pessoal lá na aldeia? Hoje em dia você ainda encontra esses amigos, vocês discutem? Como é que está essa história hoje?

Davi Yanomami: Eu fui ensinar bem para aprender como outras lideranças aprendeu. Ensinaram pra defender, ensinaram como lutar. Esse aí existe ainda, como macuxi, os macuxi, eles são vizinho... Como vocês falam, vizinho, né, ajudar os outro. Isso existe ainda. Às vezes, quando eles tá fazendo grande reunião, eles precisam de mim, então eles me convidam para mim participar da reunião deles.

Rosa Gauditano: Vocês conversam sempre então?

Davi Yanomami: Conversa sempre com a [palavra incompreensível]. Eles mandam carta e jornalzinho, deixam...

Paulo Markun: Isso em que língua?

Davi Yanomami: A língua nabo, português... [risos]

Paulo Markun: Ah, português...

Davi Yanomami: É.

Ulisses Capozoli: Davi, deixa eu perguntar uma coisa para você. Do lado brasileiro do yanomami, certamente que tem problemas. Mas eu me lembro naquelas reuniões que você fez com os yanomamis na Venezuela, lá na beira do Orinoco, e parece que a situação lá é muito mais difícil, não é? O que é que não acontece lá que já aconteceu aqui? Qual é a diferença que tem dos yanomamis que vivem na Venezuela e os yanomamis que vivem no Brasil hoje? A situação na Venezuela me parece que é mais difícil ainda. Não é isso que você ouviu lá? Como é que é isso?

Davi Yanomami: Eu fui com outros parentes com Venezuela, com um jornalista, que é ele (aponta para Ulisses Capozoli). Então, eu cheguei lá...

Paulo Markun: E ele agüenta andar na floresta? [aponta para Ulisses, risos] Ele não andou na floresta só de carro? [risos]

Ulisses Capozoli: Conta para ele o que a gente fez lá [risos].

Davi Yanomami: Eu falei, a primeira vez que fui aproveitei nossa viagem. Contei toda a situação do Brasil. Lá é diferente. O governo deles quer fazer as aldeia municipalizar. Juntar os índios, juntar os maloca pra ficar pequenininho, a terra pequenininha. Aí depois eles quer tomar o lugar dos índios yanomami de lá. Então eu expliquei pra ele, porque eles não têm outro yanomami pra fazer... ajudar, despertar, abrir o olho... Porque para eles é muito perigoso. Pra municipalizar as comunidades... É como uma vila... para juntar os yanomami num terreno só. Isso não serve. Então era isso que estavam querendo fazer lá. Então em [palavra incompreensível], eles tão apostando, mas eu falei que não é bom...

Paulo Markun: Mas Ulisses funcionou na floresta, anda na floresta ou não é...?

Davi Yanomami: O Ulisses, ele é bom de “ruadeira” [bom para andar na rua, risos]

Paulo Markun: De ruadeira vai bem? [risos]

Davi Yanomami: É, de ruadeira.

Paulo Markun: Quando tem que andar no meio da trilha, não anda, não...?

Davi Yanomami: Ele queria andar, mas os parentes não deixou, porque é muito longe... As montanhas muito alto. Então, os parentes ajudou nós para não fazer viagem perdida.

Paulo Markun: Bom, Davi, a gente não está numa caminhada na selva, mas conversar, assim, às vezes, cansa também. A gente vai fazer um rápido intervalo e o Roda Viva volta já, já.

[Intervalo]

Paulo Markun: Voltamos com o Roda Viva, hoje entrevistando o líder Davi Yanomami. Várias das pessoas que estão aqui participando do programa hoje têm algum tipo de trabalho ligado à cultura dos yanomamis, à história dos índios... A jornalista Dilea Frate, por exemplo, tem um vídeo produzido, independente, sobre o assunto de índios; a Cláudia Andujar, que é uma das fotógrafas mais importantes do Brasil, e que tem um trabalho muito significativo. Tem esse livro que é um resumo de um trabalho que ela fez durante muitos anos. Quando é que começou esse trabalho, Cláudia?

Cláudia Andujar: A primeira vez que eu encontrei os yanomami foi em 1971.

Paulo Markun: Era diferente?

Cláudia Andujar: Olha, era e não era, porque ainda hoje se encontra lugares como tem lá no livro. Inclusive o primeiro grupo que eu encontrei, que não é o grupo do Davi, que é o maturaca, um lugar bem mais ao oeste, onde tinha os salesianos. Há muito tempo, quando eu cheguei lá, eles, por exemplo, iam à igreja. Nós temos yanomami que hoje estão ainda nos seus primeiros contatos, quer dizer que a área yanomami é muito grande e tem muitas situações lá. Os yanomami que eu primeiro fotografei de uma maneira mais séria, dediquei muitos anos a fazer esse trabalho, eram índios muito pouco contatados. Mas esse tipo de yanomami ainda existe. Tem várias regiões onde, ainda hoje, o contato é muito pouco. Uma característica é que eles mantêm sua cultura. Mesmo em lugares onde os garimpeiros entraram, ficaram lá dois, três anos... Se eles vão embora, ou enfim, são expulsos... Porque eles não vão embora sozinhos... se a gente dá condições para o yanomami voltar a viver sua cultura tradicional, ele volta.

Paulo Markun: Um outro trabalho importante também é o da fotógrafa Rosa Gauditano, o livro é esse: Índios, os primeiros habitantes. Rosa, essa foto da capa é um yanomami né?

Rosa Gauditano: É. É um yanomami da aldeia Demini, da aldeia do Davi.

Paulo Markun: Agora, o seu trabalho não tem apenas yanomamis?

Rosa Gauditano: Não. Esse trabalho são oito povos indígenas do Brasil. Eu comecei esse trabalho em 1989, no encontro de Altamira, que foi um encontro de vários povos indígenas no sul do Pará.

Paulo Markun: Se você pudesse resumir uma imagem das centenas ou das milhares que você fez, o que te vem à cabeça quando você pensa em índio?

Rosa Gauditano: Olha, o meu trabalho procura mostrar isso que a Cláudia está falando um pouco, que eu acho que é a essência da cultura. As fotos procuram mostrar o que ainda existe, o que é mais forte dentro da cultura indígena, que são todas as tradições que são passadas durante séculos de pai para filho, os velhos que ensinam as crianças. Eu acho que é uma reunião de várias coisas, mas eu procuro mostrar a essência de cada população indígena que eu fotografei. Porque eu acho que é aí que está a força de eles estarem aí ainda hoje, sobrevivendo.

Paulo Markun: Davi, você deve ter visto esses livros, viu uma porção de fotos que fizeram sobre você, viu reportagens na televisão... Você acha que, nessa hora,o branco consegue captar o que é o índio, mostrar o que é o yanomami, por exemplo?

Beto Ricardo: Davi, o que os xaboris comentam quando eles vêem essas fotos, o trabalho do fotógrafo? Como é?

Davi Yanomami: Os xabori comenta... Os xabori estão descobrindo que máquina, câmera estão destruindo a nossa imagem, vocês falam imagem...

Paulo Markun: Eles não gostam, então?

Davi Yanomami: Eles não gostam.

Paulo Markun: Mas você gosta? Você acha que quando você vê uma foto sua ou do seu povo, você acha que aquilo ali é o que é o seu povo, ou não?

Davi Yanomami: Quando eles estão vivos lá, botando no retrato, eu acho bom. Quando eles tá morto, tem que tirar fotos que está no [palavra incompreensível].

Paulo Markun: Ah, você não gosta de foto de gente que já morreu?

Davi Yanomami: ... que morreu. Então, nossa cultura não gosta. É diferente de vocês. Vocês [quando] morre tua mãe, vocês guardam no...

Paulo Markun: Põe o retrato na parede...

Davi Yanomami: Retrato na parede. Nós não...

Dilea Frate: Isso tem a ver com a alma, né? Isso que você fala, que ela...Então explica...

Davi Yanomami: Sim. Então, xabori estão... Xamanismo, espírito fala que não pode mais deixar tirar foto. Já tirou muitas fotos. A que ele já tirou, já dá pra conhecer os yanomami e outros parentes das outras aldeias, como xavante, kaiapó, waiwai...

Paulo Markun: E gravador? Porque tinha o Juruna, você lembra dele? O Juruna andava sempre com um gravador e usava o gravador a favor do índio, muitas vezes. O gravador atrapalha?

Davi Yanomami: O [cacique xavante] Juruna, o Mário Juruna, eu não conheci ele, não, mas eu conheci depois de ele sair do cargo de deputado federal. Ele usou gravador porque ele não entendeu nada. Ele gravou pra quando ele sai da reunião, aí ele vai continuar ouvindo...

Paulo Markun: Até entender...

Davi Yanomami: Pra entender. Então é por isso que ele usou o gravador.

Paulo Markun: E muitas vezes pegou o branco pela palavra, porque o branco falava uma coisa hoje e outra amanhã...

Davi Yanomami: Até hoje os branco promete. Fica mentindo, enganando os índios. É por isso que o Mário Juruna, ele usou o gravador, pra descobrir que os brancos prometeu. Se prometeu, então não resolveu nada, está só... fica mentindo...

Beto Ricardo: Davi, eu sei que você gravou muitas histórias contando a sua vida, os seus pensamentos, o que você pensa sobre os brancos etc. Um trabalho conjunto que você está fazendo com o antropólogo Bruce Albert, vocês estão preparando um livro que deve sair logo mais, né? Como é esse livro?

Davi Yanomami: Então eu gravei, nós pensamos, eu e Bruce. Eu procurei saber que ele poderia ajudar a própria nossa língua, porque nós gravamos e eu gravei a minha palavra pra traduzir com [o] yanomami [para o] e português, pra poder sair livro meu. Não é do antropólogo, mas ele está ajudando pra próprio yanomami pediu pra fazer livro pra dividir pra outro lugar.

Paulo Markun: Que história vai ter nesse livro?

Davi Yanomami: Contando a história de xabori, contando de sonho, contando de terra, de floresta, do céu, da chuva...

Gilberto Nascimento: Davi, numa das suas entrevistas, você fala que uma diferença fundamental que tem entre o índio e o branco é na questão dos sonhos. Você falou que o branco não sonha. Como que o índio sonha? Ele sonha de uma maneira diferente do branco? Como é que é essa história?

Davi Yanomami: Nós sonhamos de maneira diferente. Porque a gente sonha com outro lugar que a gente nunca foi. O xabori leva os nossos sonhos - xamanismo espiritual -... ele leva nosso sonho para conhecer aonde nunca andou... E vocês? Sonha de [com] banco, de [com] dinheiro... [risos]

Paulo Markun: Ah, também tem sonho bom...[risos]

Davi Yanomami: Então a gente sonha diferente. Vocês sonham de [com] ganhar mais dinheiro e trabalhar...

Paulo Markun: Mas isso a gente sonha acordado, a gente não sonha dormindo... [risos]

Dilea Frate: Você recebe mensagens em sonhos? O índio se comunica com os espíritos através do sonho?

Davi Yanomami: Sim, nós xabori se comunica, se comunica quando xabori está dormindo... Então sonho vem trazido por xabori espiritual. Eu tô dormindo na rede... Então xabori vai trazendo a mensagem. E também a gente manda mensagem pra outro pajé, da outra aldeia...

Dilea Frate: Você já recebeu alguma mensagem que você aplicou na sua vida prática, na vida da aldeia?

Davi Yanomami: Sim...

Dilea Frate: Como? Você pode dar um exemplo?

Davi Yanomami: Para receber?

Dilea Frate: Não... Você já sonhou com alguma coisa que... essa mensagem fosse alguma coisa que tivesse intervenção direta, tivesse na sua vida prática, na sua vida do dia-a-dia da aldeia? Já teve isso ou não?

Davi Yanomami: Não. Só... Atrás do sonho só traz a mensagem...

Dilea Frate: Então, mas essa mensagem diz exatamente o quê?

Davi Yanomami: O que aconteceu como morte, problema da aldeia, alguém nabo [branco] matou...

Laymert Garcia: Davi, quando você foi na Inglaterra, lá em Stone Range, lá naquele lugar onde tem aquelas pedras, como é que foi aquilo?

Davi Yanomami: Lá eu fui aonde os brancos enterravam. Primeiro eu acho que eles não usaram o cemitério. Os antigos, o nabo [branco], eles pensando, fazendo uma casinha pra ele, pra ficar o corpo por dentro. O osso dele fica guardado. E eu pensando assim, porque antigamente não tinha ferramenta, não pensava... Daí, depois ele pensou pra fazer buraco para enterrar o homem branco morto. Assim que eu pensei, porque lá é diferente de vocês... Lá é [de onde] que vêm os seus costumes. O nosso não, o nosso costume é diferente. Quando parente morre, yanomami, a gente faz outra coisa, de outro jeito.

Laymert Garcia: Como é que é os yanomami fazem quando morre alguém?

Davi Yanomami: Quando yanomami morre a gente bota um paneiro, xamaxi dentro... A gente leva na floresta... Tem que deixar, fazer acima do geral pra ele apodrecer, cair todas as carne, só deixar o osso. Então, essa é a nossa cultura.

Paulo Markun: Não tem coisa de queimar o corpo?

Davi Yanomami: Depois a gente queima...

Paulo Markun: Depois que cair todas as peles...

Davi Yanomami: Tem que deixar cair as carne primeiro... A gente só recolhe o osso...

Paulo Markun: O osso ainda quente, né? Quando ainda está no meio do fogo...?

Davi Yanomami: Não. Quando tá bom de recolher. Então a gente pega e depois a gente faz... pra caçar primeiro, matar uma caça... A gente faz o cerimonial, chama as família, todo mundo reunido... A gente faz fogo para queimar osso de parente.

Paulo Markun: Você não sabe o nome do seu pai, né?

Davi Yanomami: Não.

Paulo Markun: E sua mãe não dizia por que ele tinha morrido...?

Davi Yanomami: Não. Mamãe não falou nada.

Paulo Markun: E isso é costume no yanomami...?

Davi Yanomami: É.

Paulo Markun: E você chama Davi... Davi é o seu nome de branco, né?

Davi Yanomami: É. Foi a língua de vocês que botou o meu nome.

Paulo Markun: Como é que é o seu nome em yanomami?

Davi Yanomami: Meu nome é Kopenawa Yanomami.

Paulo Markun: Kopenawa Yanomami?

Davi Yanomami: Hã, hã.

Paulo Markun: Todo yanomami se chama um nome e depois Yanomami...?

Davi Yanomami: Sim...

Paulo Markun: Seu filho como chama?

Davi Yanomami: Ele é Raricawa.

Paulo Markun: Raricawa quer dizer o quê?

Davi Yanomami: Raricawa. Está amanhecendo, vem clareando...

Paulo Markun: Amanhecendo... Você tem quantos filhos mais? Duas meninas...?

Davi Yanomami: São quatro.

Paulo Markun: Quatro...?

Davi Yanomami: Três meninas e um menino é ele.

Paulo Markun: Quer dizer que você vai escolher três maridos para as suas filhas, né? Não é um só não, né? [risos] Como chamam as outras filhas?

Davi Yanomami: Mamoxiwa.

Paulo Markun: Que quer dizer?

Davi Yanomami: Olhos quebrados.

Paulo Markun: E a outra?

Davi Yanomami: Outro...Yoinani.

Paulo Markun: Que é?

Davi Yanomami: Uma abelha.

Paulo Markun: Um tipo de abelha?

Davi Yanomami: É, abelha, abelhinha que gosta de chupar flor da... de uma flor...que chupa...mel de...

Paulo Markun: Abelha que faz mel.

Davi Yanomami: É, que faz mel.

Paulo Markun: E a outra, a terceira?

Davi Yanomami: E a outra é, a terceira é... eu botei o nome dela Duíra.

Paulo Markun: Que quer dizer?

Davi Yanomami: Então, isso aí é português que...

Paulo Markun: Ah, Duíra?

Davi Yanomami: Hã, hã, Duíra.

Paulo Markun: E como é que você escolhe? Como é que vocês escolhem os nomes dos filhos? Porque aqui, branco quando vai escolher, o marido senta com a mulher, conversa... Às vezes, bota o nome do avô, da avó...tá certo? Um nome que ele acha bonito...Como é que vocês escolhem?

Davi Yanomami: Não, aí, ninguém escolhe. Ele escolhe apelido. “Lama rudema”, isso é caçador. Aí tem outro que bota nome, ele não usa, porque é proibido usar.

Paulo Markun: Como assim? O pai e a mãe, o pai bota nome nele e ele não quer?

Davi Yanomami: É outras pessoa que bota nome. Então outras pessoa que bota nome, ninguém usa ele, porque é nome de segredo.

Ulisses Capozoli: Davi, deixa eu perguntar uma coisinha pra você: os yanomamis no Brasil são mais ou menos em torno de 10 mil. Se você comparar com algumas nações, com alguns grupos, algumas etnias que estão se extinguindo, por exemplo, os avacanoeiros não são mais que catorze, os juma são meia dúzia de pessoas. Vocês são 10 mil. Vocês têm uma crença e você já me contou uma vez que, se os yanomamis forem mortos, se os yanomamis desaparecerem, todos os xaboris, todos os pajés yanomami que fazem... seguram o céu pra que o céu não desabe em cima da gente, não... se essa gente, se os pajés morrerem, o céu cai em cima da terra e morre todo mundo, morrem os brancos também. Como é que é essa história dentro da visão dos yanomamis?

Davi Yanomami: A história de yanomami e também [de] outros parente do Brasil... Cada tribo, eles têm contato com xamanismo espiritual. E esse xabori que segura planeta, que cuida, que protege, que fazer controlar quando a terra tá querendo chorar....xabori, ele não deixa....

Ulisses Capozoli: E a terra querendo chorar por quê?

Davi Yanomami: Por que o povo tá morrendo.

Ulisses Capozoli: Branco e índio?

Davi Yanomami: Eu acho que ele [o branco] morre mais que os índios.

Ulisses Capozoli: Xabori chora mais pelos índios do que pelos brancos...

Davi Yanomami: Chora.

Ulisses Capozoli: Por que você acha que ele chora mais pelos índios?

Davi Yanomami: Xabori, ele quer viver ainda porque os xabori tão morrendo [por causa da] a doença do branco. Então, nós, os yanomami, que tá cuidando [do] ao mundo, o céu...Se xabori morrer, se eles morrer, acaba todas...quando acaba todos xabori...

Ulisses Capozoli: O céu desaba...

Davi Yanomami: [sujeito da oração incompreensível] vai quebrar, cair.

Beto Ricardo: Davi, quando foi no final de 1980, dos anos 1980, começo dos anos 1990, quando tinha grande evasão garimpeira lá e, segundo as informações da época, cerca de 20% do povo yanomami morreu, os xaboris estavam preocupados nesse sentido que o Ulisses falou? Quer dizer, como é?

Davi Yanomami: Tava preocupado, sim.

Beto Ricardo: O que que eles diziam?

Davi Yanomami: Tava muito preocupado. Porque xabori fica revoltado. Xabori precisa ter família dele. Xabori não queria que o garimpeiro vai lá pra matar, levar as doença e também dá o tiro. Xabori não gostou. Xabori ficou revoltado com ele, com os homens que andou por lá de helicóptero, de avião. Então, alguns brancos morreram. Cair avião, perder avião, porque tem que fazer alguma coisa, então sumiram pra apagar a morte dos parente de yanomami... Então, isso mostra como vai ser grande vinganças.

Laymert Garcia: Mas tem o problema da xawara também, não tem? Não tem o problema da xawara? Da fumaça? Como é que é essa história da ....

Davi Yanomani: A xawara é uma poluição que vocês usa aqui na cidade. Fábrica grande sai muita fumaça até essa [aponta para o teto] faz fumaça pra fazer derreter esse material que vocês ... fazer brilhante a fumaça deles vai pra... no ar. Porque isso aí vira doença, epidemia, e essa fumaça que faz ataca de coração de vocês também.

Claudia Andujar: Davi, você, através dos anos que você lutou para conseguir a demarcação da área yanomami, você sempre falou que você estava muito sozinho, que só tinha você, como yanomami, para lutar. Como que você vê no futuro? Porque os problemas não acabaram, não? Como é que vai ser essa luta quando você ficar mais velho, você não vai mais poder representar os yanomami. O que você vai fazer? Tem outros yanomami que vão assumir teu trabalho ? Você está fazendo alguma coisa nesse sentido? Você está criando outras lideranças? Você é uma liderança, mas você é muito sozinho.

Davi Yanomami: Sim, eu falei mesmo. Porque eu falei com você que você tá me perguntando... Que outros índios fala português, como João Davi, lá do pessoal do [aldeia] Maturacá, fala português mas eles não têm coragem pra lutar contra essa invasão de garimpo, porque eles têm medo de morrer. Mas eu não, eu sou diferente. Eu lutei, como eu sozinho, mas eu tenho a proteção do Xabori. Mas agora, eu, nós, yanomamis, estamos começando a estudar nossa língua, pra fazer a história primeiro, pra não perder. E depois nós vamos aprender a falar português e escrever e ler pra poder falar com o homem branco, pra não deixar fazer como aconteceu, de matança, de morrer de doença de malária. Então, esse ano nós tamos se preparando, nós tamos tentando se preparar... o rapaz... pra preparar pra lutar como eu tô lutando. E eu, depois um dia, eu fico velho, às vezes acontece, cobra me morde e qualquer hora acontece. E pra você também... Você sai, bate de carro, cê morre, ladrão te dá um tiro, você morre. A mesma coisa a doença te mata de [palavra incompreensível]. Então, depois não [palavra incompreensível].

Gilberto Nascimento: Davi, como é que você compara o apoio que os yanomamis recebem, por exemplo, do exterior e o apoio recebido aqui no Brasil? Você acha que aqui no Brasil, por exemplo, ocorre pouca mobilização em apoio a vocês, do exterior vocês têm tido um respaldo maior ou não? Como é que é o apoio que você recebe aqui e como é que é o apoio que você recebe de fora, de outros países?

Davi Yanomami: É assim: aqui no Brasil eu comecei pedir pra resolver esse problema da minha comunidade de yanomami. Nossa autoridade aqui no Brasil, eles não quer resolver. Só fica prometendo, dizendo que não tem dinheiro, não tem pessoa pra ir, não tem condições pra tirar garimpeiro. Eu cansei de andar aqui em Brasília, com o presidente José Sarney que prometeu, fica mentindo. Então ia começar ficar morrendo meus parente de doença. Cresceu, espalhou garimpeiro, destruiu a nossa terra, destruiu a nossa floresta, sujou o rio e contaminou o nosso terreno. Então eu teve oportunidade pra mim sair do meu país pra outra terra pra contar a história que tá acontecendo aqui, porque se eu não sair, continua, fica escondendo, porque nossa autoridade não conta pra outros país. Então eu sei que eu procurei, eu não procurei, mas os pessoal me apoiou meu trabalho, eles acharam bom que eu ajudasse meu povo. O meu trabalho, eles acharam bom. Eu não tava fazendo como palhaço, não, eu tava fazendo pra defender meu povo.

Laymert Garcia: Você foi até a ONU. O que você falou?

Davi Yanomami: Eu fui e falei com ONU também, então eu tive que sair do meu país pra poder resolver lá com existe chefe dele lá.

Beto Ricardo: Davi, recentemente pegou fogo lá em Roraima como em outras partes da Amazônia, né? O que aconteceu? O fogo pegou lá na sua terra? O que teu povo, os xaboris falaram sobre isso? Queria que você me respondesse falando um pouquinho em yanomami pras pessoas poderem ouvir um pouco o som da tua língua. Depois você traduz, porque senão não vai dar pra entender.

[Davi Yanomani começa a falar em sua língua]

Paulo Markun: Agora em português se não a gente fica que nem o yanomami quando escuta português e não sabe falar.

Davi Yanomami: Primeiro: aconteceu a queimação de floresta. E nesse tempo, e acho que mais 500 anos atrás, teve problema também de fogo. Isso aí segundo o que aconteceu. Queimou tudo nessa época, queimou tudo a nossa floresta. Aqui também queimou, ficou lavrado. Não tem mais aonde não tem floresta alta, lá que passa o fogo, lá, como em Surucucu, como lá na terra, os macuxi, Boa Vista. Porque lá que queimou tudo as árvore, aí virou campo. Agora esse fogo que passou porque verão era muito forte, muito quente, verão chupou a água, levou pra cima. A terra ficou seco e as árvore também ficou seco. As folha de árvore da floresta tava tudo torrado. Então os moradores da beira da estrada, [seringueiro?], fazendeiro, que derrubaram as suas terreno e depois tocaram fogo, esse fogo que ele tocou no roçado dele, ele deixou aumentar fogo, assim que aconteceu. Queimou metade da nossa floresta: queimou os animais, tamanduá, cotia, paca, anta, jabuti...morreu queimado. Mas isso aí não é bom pra fazer mais isso aí. Então isso aí não é culpa nossa. É culpa de fazendeiro, morador de... coronheiro, que mora na beira da estrada, que gosta de derrubar a floresta, então esse é que deixou fogo andar, entrar, invadir a nossa reserva.

Paulo Markun: Davi, você acha que todo fazendeiro e todo garimpeiro é ruim, é mal?

Davi Yanomami: Bom, pra nós é bom ele saber trabalhar na terra, tem que saber usar as floresta, não é pra invadir como se matar, tem que saber usar floresta, usar certo, lugar certo pra derrubar, pequeno. Não é pra derrubar as árvore e depois toca fogo.

Paulo Markun: Se teu povo tiver uma serra elétrica...

Davi Yanomami: [continua respondendo a pergunta anterior de Markun] E garimpeiro mesma coisa: garimpeiro tem que ter as suas própria lugar pra trabalhar. Porque garimpeiro nós chama ruim porque nosso chefe ele não reparte a terra. Os fazendeiro mesma coisa: os fazendeiro só, eles ... Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] só dá uma terra pra fazendeiro grande, porque eles [os fazendeiros] divide. Então nós chama de “branco ruim” porque eles destrói. Eles nem pensa [em] nós. “Aquele índio não vai gostar se a nossa fogo chega lá e ele vai brigar comigo”. Ele não pensa isso. Nós, não. Nós respeitamos. Nós usamos nosso terreno próprio. Não é pra nós, yanomami, chegar lá na fazenda dele, derrubando, fazendo roçado. Isso aí não. Nós sabemos, respeitamos pra não dar problema.

Ulisses Capozoli: Ô, Davi, o governo, a Funai especificamente, depois de anos e anos de demora, anunciou, entre o ano passado e este ano, a retirada dos garimpeiros do território yanomami, katrimani, aquela região toda. Como é que está a situação agora? Está completamente livre de garimpeiro, eles estão voltando, tem uma parte que não saiu? Como é que está essa situação dentro da área yanomami?

Davi Yanomami: Muita gente sabe que o governo tirou garimpeiro, mundo inteiro sabe isso, a retirada dos garimpeiro. Todas as pessoa que, todo esse planeta Terra tá [de] no olho [na] da gente. Então todo mundo sabe que nossa autoridade tirou garimpeiro, demarcou, gastou dinheiro, assinou a documento, homologado pra não entrar mais garimpeiro. Mas a documento dele tá na mão do governo.

Ulisses Capozoli: Mas, agora, tem garimpeiro lá na....

Davi Yanomami: Mas agora eles sabe que existe demarcação, os garimpeiro sabe que não é... continua a terra do governo. Porque eles sabe que yanomami só usa por cima, usa [pra] coletar fruta, as caça e...

Ulisses Capozoli: Desculpe te interromper. Você tem informação de outras aldeias? De retorno de garimpeiro, que os garimpeiros estão voltando?

Davi Yanomami: Retornou duas vez.

Ulisses Capozoli: Agora tem garimpeiro outra vez na área...

Davi Yanomami: Não, ele foi... depois [da] demarcação, invadiram de novo.

Paulo Markun: Aí o governo tirou de novo...

Davi Yanomami: Tirou de novo.

Paulo Markun: Hoje tem garimpeiro lá?

Davi Yanomami: Agora, o último que eles entraram, tirou de novo. Agora, eles tão fazendo campanha política em Boa Vista, acho que eles tão aproveitando [para] de entrar de novo a pé ou então de canoa.

Ulisses Capozoli: O garimpeiro?

Davi Yanomami: Hum, hum...

Ulisses Capozoli: Porque se você imaginar que na cidade não tem emprego, que o número de pessoas sem emprego vai aumentando, é natural esperar que uma parte dessa gente vá fazer o que os garimpeiros sempre fizeram: ir atrás de ouro, de diamante. E o governo em Roraima não é muito preocupado com essa questão indígena, não?

Davi Yanomami: Não, ele não é muito preocupado, não. Ele é a favor só [dos] garimpeiro, porque garimpeiro que dá ouro pra ele. Ele não tá interessado [em] pra ajudar a gente não. Ele tá interessado [em] pra abrir caminho [para os] dos garimpeiro entrar nossa reserva.

Ulisses Capozoli: Você, por exemplo, e outras lideranças, João Davi e o pessoal da CCPY [Comissão pela Criação do Parque Yanomami, atualmente Comissão Pró-Yanomami] que ajuda vocês, dá apoio... Como é que vocês estão pensando criar uma resistência pra que não haja uma invasão grande, como já aconteceu outras vezes, de garimpeiro? O que se pode fazer nesse momento? Você tem que falar com o presidente da República... O que passa pela sua cabeça, como é que você pensa enfrentar esses garimpeiros no sentido de não deixar que eles voltem pra lá? Se são tão numerosos como eles já foram no passado?

Davi Yanomami: Eu acho que nós que conversar com liderança, com o presidente da Funai, com presidente de República. Então a gente conversar com chefe pra pedir pra fazer uma base de vigiar a área. Tem que fazer uma base pra....

Paulo Markun: Uma base do Exército, né?

Davi Yanomami: Sim...

Dilea Frate: Qual é o tamanho da área?

Davi Yanomami: Tem que fazer uma base da Funai [respondendo à pergunta de Markun]. Tem que fazer uma base da vigilância e um do Paapiu, porque lá, eles só vão pro Paapiu. Tem que ter um helicóptero à disposição pra andar. Tem que ter autoridade, botar a base pra colocar aeronave lá pra....

Ulisses Capozoli [interrompendo Davi] Mas a Funai não tem dinheiro... Em Roraima, por exemplo, não tem dinheiro muitas vezes pra botar combustível no avião. Não é verdade isso? Muitas vezes eles não tem dinheiro pra botar combustível nos aviões da Funai. Não tem gasolina, não tem dinheiro pra pôr gasolina nos aviões.

Davi Yanomami: Os garimpeiro?

Ulisses Capozoli: Não, a Funai não tem. Você sabe disso, né?

Davi Yanomami: Mas eles tão tentando isso, eles tão tentando porque só na cidade, aonde consegue chegar carro. Agora a pé, andando, ele não... os branco não anda. Só vai andar quando você pagar dinheiro. Ele vai.

Paulo Markun: Davi, em várias partes do Brasil, inclusive fora do Brasil, nos Estados Unidos, tem índio com carro novo, caminhonete, com trator, tem índio que usa o ouro que tem na terra, usa as coisas que tem na terra. Você acha que um dia o yanomami pode fazer isso? Isso vai acontecer? Isso pode acontecer?

Davi Yanomami: Bom, pode fazer se comunidade quer.

Paulo Markun: Sei... E comunidade hoje não quer? Comunidade não quer...

Davi Yanomami: Sim, comunidade hoje não tá preparado pra poder explorar a sua riqueza.

Paulo Markun: Mas o povo, todo povo [“Aquilo que você falou”, Davi começa a falar e pára] quer... fica seduzido pelo dinheiro. Esse sonho que você falou que o branco tem, muitas vezes, o povo mais humilde ou mesmo o índio acaba achando que esse é o caminho, não é? E aí vira... Tem comunidade indígena que mantém a sua cultura no Brasil, mas que tem fazenda, que tem empresa, que tem negócio. Isso você acha que pode acontecer um dia com seu povo?

Davi Yanomami: Bom, isso aí que aconteceu porque eles pegaram doença da cidade, a doença pra viver na cidade como vocês vivem. A doença pro costume de dinheiro, é doença de dinheiro que ele pegou, é costume de vocês. Mas ....

Paulo Markun [interrompendo Davi] Mas essa doença não tem remédio, né?

Davi Yanomami: Isso não tem remédio. Isso não tem remédio pra curar. Então, isso aí que o senhor perguntou, outros índio do Estados Unido tá usando carro, tem casa, tem televisão, porque eles tem, que perderam, estudou, a língua, o costume dos branco ...

Paulo Markun: Quando você bota seu povo na escola, não é isso que vai acontecer?

Davi Yanomami: Se ele quiser. No meu tempo não vai acontecer nada, não. Porque nós sabemos que se eu colocar meu amiguinho, rapazinho na escola, escola dos branco, ele vai virar branco e contra próprios parente.

Dilea Frate: Você acha que a cultura branca, ela sempre engole a cultura do índio, quando põe uma perto da outra?

Davi Yanomami: Sim, sempre engole como cobra. E vai encolhendo até deixar perder [em] primeiro lugar a língua. Não fala mais língua do próprio yanomami indígena, só falando português, português, porque já tá, o branco tá, o costume do branco tá engolindo até ... [Dilea Frate o interrompe, tentando perguntar algo] é como se chupar a laranja [Markun interrompe, fazendo outra pergunta].

Paulo Markun: Na tua aldeia o povo anda com roupa de branco ou com roupa de índio?

Dilea Frate: Ou sem roupa de índio ... [ela sorri]

Davi Yanomami: Na minha aldeia, as mulher usa tanga, os homens... eles não têm, eles usar uma fiozinho, os rapaz usa calção.

Rosa Gauditano: Ô, Davi...

Paulo Markun: Já é um pouco de roupa de branco...

Davi Yanomami: É, ele tá ... Até eu usa, porque eu usa porque vocês não vai gostar. Quando um dos teus parente chega lá, fica olhando, fala: “Olha, índio nu aí”. Daqui a pouco eles tão chamando índio: “Nu, não presta, sujo”. Tem que esconder.

Rosa Gauditano: Davi, como é que vocês estão fazendo a escola lá na aldeia Demini? Você estava falando agora que, dependendo do tipo de escola, as crianças vão aprender as coisas ruins que tem na sociedade branca. Como é que vocês estão fazendo lá com as crianças? O que vocês estão ensinando pras crianças?

Davi Yanomami: Nós tamos, nós conseguimos levar uma professora, uma professora [e um] professor casal, pra ensinar a escrito, a nossa língua. Nós queremos preservar nossa língua pra não deixar perder. Porque a gente nunca, não estudar, ninguém vai saber escrever. Então tá funcionando.

Rosa Gauditano: E aí eles estão aprendendo primeiro o yanomami ?

Davi Yanomami: Primeiro, o que nós tamos aprendendo a nossa própria língua yanomami, escrevendo. O branco não precisa ensinar a minha língua, mas vocês precisa ensinar a suas língua, falando português. Ensinar escrever, ensinar ler, ensinar a contar, pra se preparar, pra poder defender a sua direito, pra não deixar são [ser] enganado, não deixar [ser] roubado.

Paulo Markun: A gente combinou que eu ia fazer uma flechinha pra você quando você falasse muito, eu acho que você não falou muito. Mas o programa está chegando no final. Então eu queria fazer uma última pergunta pra você, Davi. Você participou desse seminário hoje que você foi fazer a palestra dessa história toda que é dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. É descobrimento para o branco, porque o índio já estava aqui. Provavelmente, com certeza, o teu povo já estava aqui quando os brancos vieram e disseram que descobriram o Brasil. Quando é que o yanomami ou como é que o yanomami descobriu o Brasil? Qual é a história? Como é que começa a história do Brasil pra você? E mais do que isso: você acha que você é brasileiro? Você se sente brasileiro?

Davi Yanomami: Claro... Então, a nossa terra Brasil. O meu povo não foi trazido por outros países. O meu povo .... Omama se criou nessa terra, povo indígena. É assim: Omama criou ...

Paulo Markun: Omama foi quem criou tudo?

Davi Yanomami: Sim, ele que criou tudo. Criou primeiro lugar a terra. Puxou... Omama pensando: “Como é que vai [ser] o tamanho do Brasil”... Ele desenhou, desenhou como é que vai ser tamanho do Brasil, pra colocar o povo indígena aqui. E Omama desenhou, deu a sua terra própria lá pra Europa, do outro lado do mar. Então ele deixou no meio água, pra cercar. Mas o homem pensaram pra fazer barco pra atravessar pra tomar nossa terra. Então, povo já tinha. Omama deixou as suas cultura, as suas tradição, e sua xabori, xamanismo, sua sobrevivência, suas comida, tudo, alimentação, as árvore.... Então, o nosso povo indígena da terra já se criou nossas raízes pra não sair do Brasil pra morar no outro lugar. Omama deixou só pra próprios yanomami. Próprios índio e outros irmão aqui do São Paulo, guarani...

Paulo Markun: Mas quando você olha para o futuro, quando você pensa no mundo que vai ter para os teus netos e para os filhos dos teus netos e daí pra frente, você acha que nesse mundo ou você alguma vez já viu esse mundo se vai ter lugar para branco, pra yanomami e para todos os povos e todo mundo vai viver junto ou vai acabar?

Davi Yanomami: Não, vai acabar. Eu sempre falo com meus próprios parente porque se continua essa doença do político, vai aumentar, vai encolhendo, encolhendo, vai acabando, vai diminuindo nosso neto, nossos filhos, se eles deixar eles ficar em paz, vai no futuro, vai demorar pra os yanomami continuar vivendo.

Paulo Markun: Você acha que essa briga que você leva, essa luta que você faz é pra que um dia, esse fim bom aconteça, essa história termine feliz ou você acha que não vai terminar feliz?

Davi Yanomami: Isso aí não vai ser bom, não. Aí já vai ser morte. Nós vamos morrer, yanomami e vocês também.

Paulo Markun: Não tem saída...

Davi Yanomami: Não tem saída.

Paulo Markun: Então porque você luta?

Davi Yanomami: Porque o meu povo tá vivo. Se tiver povo morto, tudo, eu não poderia lutar. Eu tenho parente ainda em Venezuela com Brasil, tenho os parente também do macuxi, uaimirim atroari, e aqui também São Paulo tem pouco, Mato Grosso tem outro, xavante, kaiapó, esses índio no Brasil existe ainda. Por isso liderança tem luta pra defender o direito nosso.

Dilea Frate: E você vê esse fim assim: “o branco vem engole o índio e o céu vem e engole o branco” [citando a fala de Davi]? É assim que você vê?

Davi Yanomami: Repito [a].

Dilea Frate: Você diz que a cultura branca engole a cultura do índio. Se você põe as duas juntas, a cultura branca como uma cobra engole a cultura do índio. E você disse que também a cultura do branco vai acabar. Então você acha que isso é uma etapa desse final, quer dizer, vem o branco e engole o índio, e vem o céu, como você já colocou nessa fábula, e engole o branco, e engole a terra? É isso que vai acontecer ou não?

Davi Yanomami: O branco engole índio, todinho, Brasil inteiro. O político engole índio, indígena, aí o céu vai encolher, não vai encolher não, vai desabar, matar... Aí não tem mais vida, não tem mais gente, nem xabori, nem nabo, nem preto, nem negro, não tem mais nada, acabou, assim que é final.

Cláudia Andujar: Você não falou uma vez que, quando tudo acaba, ainda tem uma humanidade lá no meio da terra que ainda pode surgir, que pode resistir?

Davi Yanomami: Depois de nós?

[Cláudia Andrujar confirma com a cabeça]

Davi Yanomami: Então, depois de nós vai ter outro povo diferente, não vai ter mais junto com o de vocês, vai separar, porque já chega de sofrimento.

Paulo Markun: Davi, tomara que você esteja errado. Tomara que a história não termine assim. E tomara que a gente – branco e índio, preto, todo mundo – possa viver junto e feliz. Eu agradeço sua presença aqui no programa Roda Viva, nosso tempo terminou. Agradeço a presença de todos os entrevistadores e convido você para estar aqui novamente na próxima segunda-feira, sempre às 10:30 da noite. Uma boa noite, uma boa semana e até lá.

Entrevista realizada em 5/10/1998 – Roda Viva – TV Cultura